O Grande Debate: presidente acerta ao falar em guerra aos governadores?

Augusto de Arruda Botelho e Caio Coppolla comentam a reunião de Bolsonaro com empresários, em que presidente pediu para "jogar pesado" com governadores

Da CNN, em São Paulo
14 de maio de 2020 às 22:36 | Atualizado 14 de maio de 2020 às 23:47

No Grande Debate da noite desta quinta-feira (14), Caio Coppolla e Augusto de Arruda Botelho abordaram a reunião entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e empresários para falar sobre a reabertura econômica. Durante a conversa, o presidente disse que "agora é guerra", em alusão às medidas restritivas adotadas por governadores.

Augusto iniciou sua argumentação lembrando que a crise econômica não é exclusividade brasileira, e que é a Covid-19, e não o isolamento social, a culpada por tamanha recessão, projetada para ser a maior desde a crise de 1929.

"A OCDE afirma que o mês de abril será de colapso sem precedentes, com previsão de queda de 10% do PIB em diversos países da zona do euro. Porém, vamos pensar como nosso presidente, que quer reabrir na base da guerra: imagine que na próxima segunda reabram diversos ramos da economia. Como se daria a abertura? Quais protocolos seguir? Quais diretrizes? Mais importante que isso, você se sentiria seguro de frequentar lugares públicos? Ninguém é contra a reabertura da economia, mas é preciso de segurança para que as pessoas voltam a conviver normalmente."

Já Caio entende a reunião com empresários como mais um movimento de Bolsonaro para tentar "sensibilizar quem realmente manda na pandemia, o STF, governadores e prefeitos e o Congresso”, uma vez que, em sua leitura, alijaram o presidente de realizar medidas incisivas contra a crise. "Este foi mais um movimento acertado do presidente a favor do isolamento vertical", afirmou.

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Augusto então voltou suas atenções para a Suécia, citada por Bolsonaro na reunião como um exemplo de como lidar com a pandemia de forma diferente, uma vez que o governo não estabeleceu quarentena por lei e apenas recomendou o autoisolamento de seus cidadãos. Estatísticas mostram que o país não se saiu bem ao lidar com a Covid-19.

"As medidas suecas não deram certo, uma vez que o país tem taxa de 349 infectados por milhão de habitantes ante 86 por milhão da Dinamarca e 40 por milhão da Noruega, todos países vizinhos. Na economia, o cenário também não é favorável, uma vez que o governo local projeta, no melhor cenário, queda de 6,9% do PIB e desemprego entre 8,8% e 10%".

Já Caio não vê a Suécia como um bom comparativo por conta da capacidade do sistema de saúde do país, que não colapsou mesmo com os altos números de doentes para a região, e porque é um país desenvolvido, onde o impacto da retração econômica é menos sentido que no Brasil.

Caio também citou a fala do secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, de que o Brasil pode perder até R$ 700 bilhões em arrecadação, e se mostrou preocupado com a perda da capacidade de investimentos do estado brasileiro, que segundo ele pode impactar diretamente no Sistema Único de Saúde. "O empobrecimento do brasil reflete no empobrecimento do SUS", disse.

Augusto então, trouxe estudo sobre o Brasil feito pela Universidade da Carolina do Norte (EUA), que concluiu que cidades onde há maior aprovação ao governo Bolsonaro também são aquelas com maior índice de contágio da doença.

"A influência da postura do presidente é muito forte do ponto de vista da saúde pública, pois ele não segue protocolos de saúde. E, ao defender de forma irresponsável a reabertura, sem ele propor um plano concreto, influencia seus apoiadores. Se reabrirmos de maneira irresponsável e tivermos que fechar novamente, esse movimento em W da economia irá causar ainda mais quebradeira de empresas", disse.