CNN traz relatos sobre as expectativas após a morte de George Floyd

A CNN ouviu testemunhos de profissionais negros que já viveram o preconceito. E eles responderam à pergunta: o que podemos esperar após a morte de George Floyd?

Débora Freitas, da CNN, em São Paulo
10 de junho de 2020 às 00:48 | Atualizado 10 de junho de 2020 às 15:25

Há duas semanas o afro-americano George Floyd morreu após uma abordagem policial. Um vídeo em que ele dizia várias vezes que não conseguia respirar ganhou o mundo e causou revolta. Desde então, diversas manifestações contra a morte de Floyd, o racismo e a violência policial foram registras nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. A pauta antirracista também ganhou o noticiário e com isso, mais visibilidade.

A CNN ouviu testemunhos de profissionais negros de diversas áreas que já viveram o preconceito. E eles responderam à pergunta: o que podemos esperar após a morte de George Floyd?

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O fundador do Vozes das Comunidade Rene Silva espera que possamos ir além do discurso “Que os atos possam resultar em medidas práticas de combate ao racismo”.

Para o sociólogo Túlio Custódio, o racismo não pode mais ser considerado algo trivial, que já passou. “Precisamos enfrentar as desigualdades e discutir seriamente a ideia de democracia racial que ainda perfaz nossas cabeças e desejos num país como o Brasil”.

Já a cantora Ellen Oléria destaca os direitos essenciais. “Meu desejo é que a gente consiga evoluir em matéria de direito e equidade, em matéria de acesso e, fundamentalmente, falar do nosso direito à vida”.

Segundo o especialista em Relações Raciais Renato Ferreira, o debate sobre discriminação tem ganhado espaço. Mas ele também cobra ações práticas. “O momento é alvissareiro para que o Brasil anuncie agendas de inclusão e promoção da diversidade racial”.

A atriz Maria Gal vê as manifestações como um momento histórico e espera que as pessoas brancas tenham consciência sobre o racismo. “A questão racial não é problema dos negros, mas também dos bancos, que têm papel fundamental pra diminuição do racismo estrutural”.

O músico Jairzinho espera que essa luta possa transformar o mundo num lugar mais sadio para todos. “Torço para que a gente consiga ter mais empatia e mais amor para transformar nossa sociedade num lugar mais amoroso e mais cordial pra todos nós”.

Para o especialista em Marketing Digital Ad Junior é hora de começar a projetar o país do futuro, mais diverso e mais aberto “Entender a voz de mais de 50% da população desse país que pede para que todos escutem o que nós estamos falando. As nossas vidas importam sim e precisamos falar disso”.

O doutor em Direito Cleifson Dias lembra a violência que diariamente tira a vida de negros no Brasil. “O caminho é longo, difícil, mas a história aponta que não somente temos razão, mas que também estamos avançando”.

A cantora, compositora e deputada estadual por SP Leci Brandão defende o aumento na representatividade nos espaços de poder. “Para que a gente possa ter a oportunidade de ver as nossas lutas, as nossas demandas serem discutidas no poder político”.

O cantor Wilson Simoninha defende o diálogo e reflexão para fazer pressão aos governantes.

Já o cantor e compositor Péricles cita os filhos de quatro meses e 27 anos. “E eu vou ensinar para ela o que ensinei para ele: sempre andar de cabeça erguida. A cor da pele não vai afetar em nada. As vidas negras importam sim e é por isso que a gente tem que lutar e muito”

Os profissionais negros da CNN também relataram suas expectativas após os atos deflagrados pela morte violenta de George Floyd.

A âncora Luciana Barreto ressalta a mistura de cores nas manifestações nos Estados Unidos. “Em algumas cidades a gente via mais brancos que negros. Então significa que as pessoas já não suportam mais, é uma luta da humanidade para que a gente tenha um mundo menos injusto”.

O produtor Daniel Motta lembra que a todo momento alguém está sofrendo violação de direitos humanos e que o racismo precisa estar sempre na agenda de todo mundo. “E que as pessoas entendam que o racismo não leva a nada que as pessoas são todas iguais. Que essas manifestações venham para mostrar que é preciso mais respeito, mais união, mais colaboração”.

Já o maquiador Valdir Martins Filho acredita que as manifestações vão revolucionar o mundo. “É necessário. E o legal é que a gente começa a entender não só o preconceito racial, mas qualquer outro tipo de preconceito”.

Para a repórter de São Paulo Débora Freitas, todos precisam parar para pensar e entender o racismo, pois só assim será possível mudar a sociedade. “Para que a gente tenha mais equidade e consiga viver em harmonia até acabar de vez com o racismo”.

A gerente de conteúdo Leticia Vidica destaca que a população negra vem lutando há muito tempo, pedindo para respirar e para que não seja morta.” Espero que o discurso não pare por aí. Hoje George Floyd será enterrado, mas espero que essa questão não seja enterrada com ele. Que renasça. Acho que tem que ser um discurso de todos, não adianta ser só meu”.

Letícia Vidica, gerente de conteúdo de conteúdo da CNN Brasil (09.jun.2020)
Foto: CNN Brasil

A analista de política Basília Rodrigues afirma que estamos vivendo um momento importante de autoreflexão e autoconscientização sobre a possibilidade de não sermos mais racistas. “Negros e brancos foram pegos nesse momento com a mesma pergunta. Será que um dia já fui racista, sou racista? Provavelmente sim. Essa oportunidade abre um horizonte”.

Segundo a repórter de Brasília Julliana Lopes, a grande pergunta é porque essas vozes nunca foram ouvidas. “É o momento de sensibilização por parte das pessoas não negras que devem sim se envolver e questionar o racismo. E das pessoas negras que têm, enfim, suas vozes ecoadas”.

O produtor internacional Fernando Henrique acredita que vive um momento especial. “Por um lado, estou relatando o caso de George Floyd, que virou sinônimo da luta contra o racismo. Por outro lado, na minha cabeça ele poderia ser um familiar”.

O repórter do Rio de Janeiro Eduardo Carvalho espera dar boas notícias sobre a população negra. “Que essas pessoas puderam sonhar. Mais do que sonhar, realizar. E que elas puderam viver, simplesmente viver.”

Por fim, o também repórter do Rio de Janeiro Jairo Nascimento lembra que o racismo escancarado traz à tona informações como as que os negros estão na ponta de todos os piores indicies sociais do Brasil. “É preciso mudar. A forma de pensar, a forma de agir. Nós queremos os mesmos direitos, nem mais nem menos, apenas sermos iguais.