O Grande Debate: devemos derrubar estátuas ligadas ao colonialismo?

Augusto de Arruda Botelho e Caio Coppolla debateram também a falta de testagem em massa da Covid-19 no estado de São Paulo

Da CNN, em São Paulo
12 de junho de 2020 às 22:45

No Grande Debate da noite desta sexta-feira (12), Caio Coppolla e Augusto de Arruda Botelho discutiram o movimento de retirada de estátuas de personagens com histórico de racismo e colonialismo, surgido no rastro dos atos pela morte de George Floyd.

No Brasil a discussão também foi levantada, com grupos defendendo a retirada, por exemplo, de obras como a estátua de Borba Gato e o Monumento às Bandeiras, em São Paulo. A primeira pergunta do debate foi: devemos derrubar estátuas ligadas ao colonialismo?

Augusto entende que estátuas são algumas das maiores honras que alguém pode receber, e que diversos homenageados por monumentos em passeios públicos atualmente seriam julgados por crimes contra a humanidade. Ele cita que até mesmo nos Estados Unidos foi banida a bandeira dos confederados de eventos da Nascar, uma categoria esportiva notoriamente conservadora. Porém, ele diz que o momento é de repensar estes símbolos.

“É momento de se fazer as perguntas sobre se devemos deixar os monumentos lá, sem contexto, ou se iremos apagar eles. Não proponho apagar a história, mas dar aos monumentos seu devido lugar ao invés de homenagear no passeio público. Ressalto que a discussão deve ser feita por vias democráticas, mas sou contra a retirada forçada dos monumentos, apesar de achar que o maior erro foi tê-los erguido inicialmente,” diz o advogado.

Caio, por sua vez, citou um texto de João Pereira Coutinho que diz que vivemos atualmente um momento de intolerância parecido com o descrito pelo liberal John Locke na Europa do século 17. Segundo ele “estamos vendo a destruição da tolerância liberal.”

“A questão das estátuas não é sobre liberdade de expressão, tolerância nem de uniformidade de pensamento,” rebateu Augusto, que entende que o que está em jogo é a “violência simbólica de se fazer uma homenagem a pessoas que ajudaram a chegarmos no ponto atual da humanidade”. Ele diz que não estamos tratando de divergências políticas, mas sim de figuras históricas genocidas. A forma sobre como iremos retirar ou não estas estátuas precisam ser debatidas pela sociedade.

Já Caio entende que manter as estátuas é um ato de tolerância, e dá exemplos de Roma. “Há por toda a capital italiana estátuas de ditadores do império romano, mas isso não reflete a política do país. Ninguém está prestando homenagens a Júlio César, mas acho sim válido contextualizar as imagens. Só não vejo sentido querer enxergar o ontem com os olhos de hoje.”

Testagem

Outro tema do debate foi sobre a capacidade de testagem do estado de São Paulo. No início, o governo prometeu realizar 8 mil testes diários da Covid-19, mas até esta semana o estado realizou 120 mil testes no total, menos de 10% dos 1,3 milhões adquiridos. 

“Pesquisadores da USP dizem que o Brasil está testando brutalmente menos do que deveria, 20 vezes menos, na melhor das hipóteses,” disse Augusto, que entende que o governo federal, ao não ter a capacidade de estabelecer as políticas de isolamento, poderia ao menos ter elaborado campanha de comunicação para conscientizar a população para o uso correto de máscaras, ou ter comprado milhões de testes e distribuir para os estados para que o país pudesse ter melhor noção da pandemia e estabelecer políticas públicas. “Lembro da fala do ex-ministro Nelson Teich, falando que estamos navegando no escuro. Continuamos navegando no escuro sem instrumentos, sem carta náutica, sem bússola e sem capitão.”

Caio diz concordar com as críticas de Augusto sobre a falta de testagens no Brasil e sobre como isso inviabiliza a elaboração de políticas públicas. “Por meio da testagem é possível instaurar políticas públicas para a contenção da doença. Temos recursos humanos, mas falta gestão,” disse sobre o governo do estado de São Paulo. Caio afirmou ainda que se não fossem as parcerias com instituições, o estado hoje teria seu serviço de saúde saturado e sem capacidade de atendimento.

(Edição: Paulo Toledo Piza).