O Grande Debate: a polícia brasileira é muito violenta?  

Augusto de Arruda Botelho e Caio Coppolla debateram sobre a violência policial no Brasil

Da CNN, em São Paulo
22 de junho de 2020 às 22:22 | Atualizado 22 de junho de 2020 às 22:29

Um rapaz, de 19 anos, desmaiou após ter sido estrangulado por policiais militares durante uma abordagem em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo. Os policiais foram afastados. Em outro caso, que está sendo investigado, uma mulher foi agredida e uma casa invadida pela polícia. Casos como estes são frequentes em todo o país. O tema do Grande Debate desta segunda-feira (22) foi: a polícia no Brasil é muito violenta?  

Primeiro a falar, Augusto lembrou que a violência policial não é uma realidade apenas brasileira: ela aumentou em vários países, inclusive em nações mais desenvolvidos social e economicamente. Mas apesar da violência policial no Brasil não ser a regra, está longe de ser a exceção.

“Mesmo se fosse algo completamente isolado, o que não é, em algumas atividades profissionais o erro e a exceção não podem ser relativizados. Não podemos admitir nenhum tipo de excesso de violência por parte da polícia, principalmente quando essa violência tem um evidente recorte racial e de classe social. A polícia brasileira é muito mais violenta com o negro e com o pobre”, disse.

Augusto falou ainda que, por trabalhar muitos anos diretamente com o sistema de justiça criminal, sabe que Brasil está “recheado” de bons policiais, de policiais honestos, vocacionados e bem treinados. 

Na avaliação dele, o desafio é como lidar com uma parcela, mesmo que menor, de “maus policiais”. “E esse desafio começa pelo investimento na polícia, pela valorização do trabalho policial, pela valorização salarial e é urgente cuidar da saúde mental dos policiais”, disse. Segundo Augusto, o número de policiais que cometeram suicídio no Brasil em 2018 foi maior que a quantidade que morreu em decorrência de confronto nas ruas enquanto estavam em serviço.

Caio afirmou que “não aplaude, não incentiva e não endossa” a violência policial contra o “cidadão de bem” e disse que ser policial no Brasil é praticamente ser um “super-humano”.

“O policial brasileiro é submetido a um nível de estresse, ansiedade e tensão que são inimagináveis porque esse é um país que se diz em ‘paz’, mas vive em guerra, refém do crime organizado”, falou. Segundo ele, isso foi potencializado por três fatores: o desarmamento civil, as mudanças na lei penal e sucateamento da polícia.

“O número de homicídios em 2019, primeiro ano do governo atual, teve 20 mil assassinatos a menos que no último ano do PT [Partido dos Trabalhadores] no poder”, contou. 

Para ele, não é possível generalizar que a polícia é violenta, pois “apenas uma ínfima minoria se comporta assim”. “Eu me recuso a rotular uma classe de heróis com base em indivíduos corrompidos”, afirmou.

Sobre o recorte racial e social, Caio acredita que ao falar em cor e perfil socioeconômico da vítima, é fundamental saber qual é a cor e perfil socioeconômico do suposto agressor. “Muitas vezes é uma questão mais relacionada a renda. Pessoas pobres vivem em regiões mais tiranizadas pelo crime organizado. A culpa, que na verdade é dessas facções terroristas, acaba recaindo sobre os ombros, já sobrecarregados, dos policiais” argumentou.

Augusto então disse que a violência no enfrentamento da alta criminalidade e das facções criminosas é diferente da situação do jovem de 19 anos, que foi agredido e teve seu pescoço pressionado. “Esse tipo de abordagem policial que é o problema”, falou. Ele também disse que ficou contente com o programa para treinar policiais militares para prevenir casos de violência policial, o "Retreinar". O anúncio foi feito pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), nesta segunda-feira.

Caio acredita que para melhorar a vida das pessoas que são abordadas e de quem aborda é fundamentar dar mais segurança para o policial. “Ele precisa saber que o governador está garantindo a segurança dele e da sua família”, falou.

Por fim, Augusto disse que não podemos conviver com abuso da violência policial, principalmente as classes mais desfavorecidas.

(Edição: André Rigue)