Ex-subsecretário diz que ordens para compras na saúde do RJ vinham do governo

Gabriell Neves relatou que contratações de empresas para fornecer respiradores, testes rápidos e remédios eram demandadas pelo gabinete contra Covid-19

Leandro Resende, da CNN, no Rio de Janeiro
10 de julho de 2020 às 14:52 | Atualizado 10 de julho de 2020 às 15:41

Em depoimento ao Ministério Público,o ex-subsecretário executivo de Saúde do Rio de Janeiro Gabriell Neves afirmou que as ordens para as compras de combate à pandemia de coronavírus vinham do Palácio Guanabara, sede oficial do governo do Rio. Trechos do relato feito no dia 13 de maio, obtidos pela CNN, revelam que Neves, preso desde o dia 07 de maio, acusa Edmar Santos, preso nesta sexta, de ser o responsável pelas contratações irregulares na área de saúde.  

Gabriell Neves afirmou que Edmar Santos nunca assinou nenhum contrato da Secretaria Estadual de Saúde, e sempre delegou a função, chegando, inclusive, a atrasar de propósito o pagamento de fornecedores. Para ele, Edmar, seu superior hierárquico, pode ter feito isso para "se afastar de futuras responsabilidades" . 

Em seu relato, Neves diz que as contratações de empresas para fornecer respiradores, testes rápidos e remédios eram demandadas pelo gabinete de crise criado para enfrentar o avanço do coronavírus, vinculado ao governador. Era de lá que Edmar Santos despachava, e não do prédio da Secretaria Estadual de Saúde, no Centro do Rio, onde ficava o ex-subsecretário Gabriell Neves. 

O depoimento de Gabriell Neves está em um inquérito sigiloso, que apura fraudes na contratação de hospitais de campanha no Rio de Janeiro. Trechos foram enviados para Procuradoria Geral da República, que investiga o governador Wilson Witzel e a primeira-dama Helena Witzel sobre o tema. Segundo o ex-subsecretário, não houve nenhuma ordem ou reunião com o governador para tratar de compras para coronavírus. 

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O ex-subsecretário afirmou, ainda, que Edmar Santos mentiu ao dizer que não tinha conhecimento sobre as contratações. "Tudo era reportado ao secretário, insluive mensagens eletrônicas através de aplicativo telefônico WhatsApp eram trocadas várias vezes ao dia, sendo que muitas vezes havia ligações para tratar dessas contratações", afirmou Gabriell Neves.

Neves afirma que todas contratações eram orientadas por Edmar Santos, que chegou a encaminhar, ele próprio, propostas de empresas à subsecretaria. O ex-subsecretário também questionou a informação passada por Edmar Santos à imprensa, em coletiva, de que seriam cancelados 40 contratos celebrados em sua gestão.

"O declarante ficou surpreendido com o fato de [Edmar Santos] ter afirmado sobre o cancelamento de 40 contratos, sendo que não havia 40 contratos celebrados, assim como pode afirmar que o Secretário tinha conhecimento prévio de todas as contratações referentes à COVID19", disse. Neves também foi perguntado sobre a demora de Witzel em exonerar Edmar Santos, e respondeu "não fazer ideia".

Gabriell Neves e outras três pessoas são réus por fraudes na contratação de equipamentos para o governo do Rio. O prejuízo chega a R$ 37 milhões. Em nota, o advogado de Gabriell, João Francisco Neto, afirmou que as acusações formuladas pelo Ministério Público estão "amparadas em premissas equivocadas", e que as questões técnicas eram decididas "no gabinete de crise". "Não cabia ao subsecretário questioná-las", diz trecho da nota. Já Bernardo Braga, advogado de Edmar Santos, foi procurado e informou que no momento não irá se manifestar.