Reabertura das atividades no Brasil foi prematura, avalia Miguel Nicolelis

Coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste acredita que a pandemia do novo coronavírus no país pode se comportar como nos Estados Unidos

Da CNN
22 de julho de 2020 às 18:50 | Atualizado 22 de julho de 2020 às 19:41

O neurocientista e coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, Miguel Nicolelis, disse acreditar que as atividades foram retomadas precocemente no Brasil, especialmente em São Paulo, e que o país corre o risco de ter o mesmo “fenômeno” que os Estados Unidos, epicentro mundial da pandemia do novo coronavírus.

“Os Estados Unidos atingiram no final de abril um platô de 20 mil casos. Ficou assim basicamente por três meses. Eles abriram prematuramente todas as atividades no sul do país e estamos vendo o que aconteceu. Agora, atingiu um platô de mais de 65 mil casos”, argumentou.

Se a pandemia não estiver controlada em uma cidade ou estado, afirmou o neurocientista em entrevista à CNN nesta quarta-feira (22), a abertura antes da hora e sem critérios epidemiológicos claros pode levar às explosões exponenciais de casos, como nos Estados Unidos. 

Nicolelis defendeu que este também não é o momento de volta às aulas.

"Esta fúria de tentar voltar às aulas é muito perigosa e pode gerar uma catástrofe se não for feita corretamente e no momento certo", disse.

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O estado de São Paulo é o mais afetado do Brasil em números totais. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados nesta terça-feira (21), chegou a 20.171 mortes. Para Nicolelis, isso é preocupante, principalmente se pensarmos na interiorização da pandemia no estado, bem como no restante do país. 

Segundo ele, a interiorização tem um grave problema no Brasil, porque os recursos hospitalares de alta complexidade, como leitos de UTI, estão mais concentrados nas capitais dos estados.

"À medida que os casos crescem no interior, os casos mais graves tendem a migrar para as capitais, ocasionando uma potencial sobrecarga de leitos de enfermaria e UTI nas capitais”, explicou.

Nicolelis falou também sobre o posicionamento do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que disse que "os níveis [de ocupação de leitos] estão tranquilos".

"Não é bem assim. 65% a 70% de ocupação [de unidades de UTI] não é muito tranquilo, se levar em conta a potencial volta de casos graves do interior para a capital, além dessa volta poder levar para novas infecções na capital. E aí, perpetuamos o ciclo”, afirmou.

(Edição: Bernardo Barbosa)