Polícia quer mais depoimentos para confirmar se jovem sofreu racismo em shopping

A dúvida surgiu porque os dois policiais negaram que a ação foi motivada pela cor da pelo do rapaz, de 18 anos

Isabelle Saleme, da CNN, no Rio de Janeiro
10 de agosto de 2020 às 19:57

Depois de ouvir o soldado do Batalhão de Choque Diego Alves da Silva e o sargento do programa Segurança Presente Gabriel Guimarães Sá Izaú – já afastado das funções –, o delegado responsável pelo caso diz não ter dúvidas de que houve abuso de autoridade durante a abordagem ao entregador de aplicativo Matheus Fernandes. No entanto, ele quer ouvir mais testemunhas para concluir se houve crime de racismo.

Os dois policiais negaram que a ação foi motivada pela cor da pelo do rapaz, de 18 anos. Durante o depoimento, o sargento e o soldado alegaram que desconfiaram de Matheus porque ele estava com um boné com a inscrição “para sempre serão lembrados”, que faria referência a criminosos mortos.

Além disso, os PMs disseram que perceberam um volume na cintura de Matheus e notaram que ele tirou fotos da dupla, quando eles se aproximaram.

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Matheus foi ouvido novamente no início da noite desta segunda-feira (10) e disse que achou o boné na rua e que não sabia que a frase poderia ser relacionada ao tráfico.

“Eles podiam ter chegado para mim e falado que o boné não era legal. Eu ia entender. Mas não daquela forma”.

A agressão foi na última quinta-feira (6). O rapaz foi ao shopping trocar o relógio que comprou de presente para o pai. Enquanto esperava para ser atendido, com a nota fiscal em mãos, foi abordado por dois homens. O circuito interno da loja de departamentos mostra a violência da ação. Matheus é arrastado para uma escada de emergência.

Um vídeo gravado por testemunhas e postado em redes sociais mostra o jovem já imobilizado, enquanto um dos homens aponta uma arma para o entregador. A ação foi interrompida apenas pela interferência de pessoas que presenciaram as cenas.

De acordo com as investigações, os PMs trabalham para uma empresa de segurança que prestava serviços na área de inteligência para o Ilha Plaza Shopping. Depois do caso, a firma foi afastada.

Em nota, a Polícia Militar disse que está acompanhando a investigação da polícia civil e que abriu uma apuração para verificar a conduta dos policiais.

A atuação de polícias como seguranças fora do horário de trabalho na PM é tida como transgressão da disciplina. Diego Alves da Silva e Gabriel Guimarães Sá Izaú devem ser ouvidos pela corregedoria nos próximos dias.