Políticas públicas não chegam a todos, diz diretora do Fórum de Segurança

A diretora do fórum, Samira Bueno ressalta que é preciso fazer uma análise por estado para entender a dinâmica da violência do Brasil

Da CNN, em São Paulo
27 de agosto de 2020 às 22:08

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgaram, nesta quinta-feira (27), o Atlas da Violência. Segundo o estudo, o assassinato de pessoas negras no Brasil cresceu 11,5% entre 2008 e 2018.

A taxa de morte de negros nesses dez anos chegou a 37,8 por 100 mil habitantes e a de não negros recuou para 13,9 por 100 mil habitantes.

Em entrevista à CNN, a diretora do Fórum, Samira Bueno ressaltou que, apesar da ligeira diminuição do número de homicídios totais entre 2008 e 2019, as políticas públicas não atingiram especialmente a população negra.

“Conseguimos implementar políticas públicas de seguranças e sociais nos últimos dez anos, o que, de fato, ajudou na redução do número de mortos, porém, esse efeito ocorreu apenas em uma parcela da população. Isso mostra a disparidade racial e a incapacidade de fazermos políticas públicas que atinjam todos os cidadãos.”

Ela ressalta que é preciso fazer uma análise por estado para entender a dinâmica da violência do Brasil. A especialista cita, como exemplo, o estado de São Paulo, unidade federativa que apresenta menor número de mortes por 100 mil habitantes e que, segundo Samira, passou por um processo ultraviolento no final dos anos 1990, que se arrefeceu.

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Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em entrevista para a CNN (27.ago.2020)
Foto: CNN Brasil

A doutora em Administração Pública e Governo comparou São Paulo com estados do Norte de Nordeste, que apresentam as taxas mais altas de morte por 100 mil habitantes. Para Samira, esse efeito ocorre por conta de uma maior presença do crime organizado na região, que se tornou estratégica para o tráfico de drogas.

“O Norte e Nordeste vivem hoje um misto de omissão do poder público e forte presença do crime organizado. O Norte, especificamente, se tornou uma região estratégica para a entrada de cocaína no Brasil e que vai para a Europa e África. Esses grupos praticam uma violência brutal e tem atuação cada vez maior nessas regiões.”

Os estados do Norte e Nordeste são também as regiões que mais matam negros no Brasil. Roraima é a unidade federativa do país com a maior taxa de assassinato de negros em 2018, com 87,5 vítimas a cada 100 mil habitantes, aumento de 59,4% em comparação com 2017. Depois, aparecem Rio Grande do Norte (71,6), Ceará (69,5), Sergipe (59,4) e Amapá (58,3).

(Edição: Sinara Peixoto)