Empresário pagava mesada a deputados e secretários e antecipou operação, diz MPF

Provas obtidas pelos procuradores foram corroboradas com a delação de Edmar Santos, ex-secretário de Saúde do Rio

Leandro Resende e Iuri Corsini Da CNN, no Rio de Janeiro
31 de agosto de 2020 às 18:45

 

Apontado pelo Ministério Público Federal como peça-chave no esquema criminoso montado no Governo do Rio de Janeiro, o empresário José Carlos de Melo, que foi pró-reitor administrativo da Universidade Iguaçu (Unig) até junho deste ano, se apresentou na tarde desta segunda-feira (31) à Polícia Federal. Ele é um dos alvos da operação Tris in Idem, deflagrada na última sexta (29). 

Segundo provas obtidas pelos procuradores e corroboradas com a delação premiada de Edmar Santos, ex-secretário de saúde do Rio de Janeiro, José Carlos pagava mesadas a pelo menos 10 deputados e dois secretários de governo, em troca de favorecimento ilícito para empresas ligadas a ele.  

O MPF afirma que José Carlos conduzia um dos três eixos de corrupção liderado por Wilson Witzel, governador do Rio afastado desde sexta por 180 dias. Conforme descrito pelos procuradores em denúncia à Justiça num documento de 433 páginas, os secretários envolvidos no esquema montado pelo empresário são: André Moura, Secretário de Estado da Casa Civil do Rio Janeiro e Leonardo Rodrigues, Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio. A mesada paga a Leonardo seria de R$ 150 mil. Além deles, Edmar garantiu que pelo menos 10 deputados também faziam parte da lista de mesadas pagas por José Carlos de Melo. 

“Corroborando os relatos da delação de Edmar Santos em relação ao recebimento mensal de propina pelo Secretário de Ciência e Tecnologia, foi verificado que Leonardo realizou nove depósitos em espécie suspeitos em conta de titularidade de sua empresa LEAP COMERCIAL E SERVIÇOS AERONÁUTICOS LTDA., no período de 09/07/2019 a 11/03/2020, totalizando R$ 588.400,00”, diz o MPF. 

Além disso, consta da denúncia que Edmar Santos chegou a receber R$ 600 mil em espécie de José Carlos, em troca de negociar com empresas para serem contratadas na área da saúde. Todo esse valor foi pago em espécie ao ex-secretário. 

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José Carlos transita entre os grupos de poder comandados por Mário Peixoto e por Pastor Everaldo. Segundo o MPF, a posição de destaque do empresário advém, principalmente, de seu expressivo poder econômico, já que possuía extrema facilidade em repassar dinheiro em espécie para membros da organização criminosa. 

Segundo a denúncia, José Carlos de Melo comanda um dos grupos de poder sob o governo Wilson Witzel. O empresário ganhou forte influência no estado, operando nos bastidores da gestão Witzel. 

Apesar de ser empresário influente, José Carlos não aparece formalmente como sócio de empresas contratadas diretamente com o poder público. Ele é responsável por atuar nos bastidores, fazendo a intermediação para contratação, pelo estado, de empresas as quais ele detém o domínio. 

José Carlos atuou, por exemplo, na contratação de uma empresa responsável por retirar as algas da Cedae no episódio conhecido como "geosmina — quando reclamaram que a água fornecida pela companhia apresentava cheiro forte e coloração turva. 

De acordo com as investigações, ele exerceu forte influência na contratação da empresa City Works Ambiental para a remoção de algas pela Cedae e pelo Instituto Estadual do Ambiente, em um contrato de mais de R$ 2 milhões para a realização de serviço emergencial de remoção de macrófitas aquáticas e resíduos sólidos flutuantes no espelho d'água do sistema lagunar de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

Relação com policiais federais

Segundo o MPF, José Carlos de Melo tem fortes ligações com policiais federais e troca constantemente de números de telefone — uma prática típica de integrantes de organizações criminosas, segundo o órgão. Na denúncia que culminou no afastamento de Witzel, os procuradores apontaram que José Carlos obteve informações sigilosas acerca da deflagração da “Operação Favorito”.

De acordo com o depoimento de Edmar Santos, o ex-secretário de Saúde foi avisado por José Carlos que no dia seguinte haveria uma operação policial, que Mário Peixoto estaria envolvido e que Edmar “poderia ir dormir tranquilo”. De fato, na “Operação Favorito” deflagrada no mesmo dia previsto por José carlos, Mário peixoto foi preso. “Corroborando os relatos do colaborador, as provas obtidas na 'Operação Favorito' demonstraram que a organização criminosa teve ciência do dia em que seria deflagrada a operação”, afirmou o MPF.