Eletrodomésticos queimados, comida estragada: os prejuízos pós-apagão no Amapá

MME garantiu que fornecimento energético está normalizado após estado ficar 22 dias no escuro.

Abinoan Santiago, colaboração para CNN Brasil
24 de novembro de 2020 às 19:48 | Atualizado 24 de novembro de 2020 às 20:39
Casa pegou fogo após retorno repentino de energia
Foto: Divulgação/SOSAmapá

Com o retorno do fornecimento de energia em 100% no Amapá, anunciado nesta terça-feira (24), moradores agora têm que calcular as perdas materiais ao longo dos 22 dias de apagão.

O problema teve início em 3 de novembro e atingiu 13 das 16 cidades do estado após um incêndio em uma subestação de Macapá.

A normalização do fornecimento de energia pôs fim ao racionamento praticado desde 6 de novembro. O rodízio deixava a população com energia a cada intervalo de três horas ao longo do dia. No meio das idas e vindas da eletricidade, moradores sofreram perdas.

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Um dos casos mais emblemáticos é a da família de Sandy Wendy, de 24 anos. A casa onde os pais e os dois irmãos moravam no distrito de Ilha Mirim, em Macapá, pegou fogo na noite de 12 novembro.

A energia retornou fora do horário programado e causou curto circuito na residência, gerando perda total em um incêndio.

A jovem conta que agora divide a própria casa com o restante da família. São nove pessoas para dois quartos. Além dos irmãos e os pais, residem o marido e outros três filhos.

 “Somente meu irmão estava em casa. Ele dormia no quarto da frente e viu o fogo em um estágio bem avançado, já que as chamas iniciaram na parte de trás da casa. Acreditamos que foi pelo apagão porque não tinha nenhuma vela acesa, então, não começou por causa disso. A energia foi embora e, logo depois de retornar, o fogo iniciou”, diz a jovem, que agora mobiliza as redes sociais em uma vaquinha online para arrecadar dinheiro e reconstruir a casa dos pais.

O pequeno comerciante Aloísio Castor Braga, de 63 anos, é outro que sofreu perdas materiais com o caos elétrico que durou três semanas.

Morador do bairro Paraíso, em Santana, a 17 quilômetros de Macapá,  ainda não teve coragem de contabilizar a prejuízo em mercadorias nos dias sem total fornecimento de energia antes do racionamento.

O empreendedor diz que também precisou comprar outros equipamentos para manter a mercearia funcionando após constantes quedas de energia.

Agora, mesmo com o retorno de 100% do fornecimento, anunciado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), ele está desacreditado de que não ficará mais sem o serviço.

“Como o rodízio ficava a cada três horas sem um horário sendo cumprido, queimaram dois freezers, além da perda da mercadoria no início. Além disso, com a falta de energia, tive que fechar mais cedo, afetando as minhas vendas. Apesar de nunca ter sido assaltado, se tornou algo muito perigos”, lamenta.

Comerciante de Santana acumula perdas de equipamentos e mercadorias
Foto: Mari Serrão

Perda de insumos também viveu o engenheiro florestal André de Jesus, de 26 anos. O apagão ocorreu horas depois que ele fez as compras do mês. André lembra que quase tudo foi para o lixo porque não teve como refrigerar os mantimentos.

“Como fomos pegos de surpresa, muita coisa foi perdida. Fizemos a compra do mês e acabou indo para o lixo legumes e frutas, por exemplo, porque não teve como fazer o condicionamento correto dessas mercadorias”, confirma.

Ele acrescenta que, mesmo com o retorno da energia, se mantém em alerta sobre a capacidade energética do estado.

“A gente já não sabe se acredita ou não porque vários prazos foram dados e não cumpridos. Existiram muitas situações complicadas sobre em quem acreditar, pois tivemos vários prazos não honrados, como o dos cronogramas do rodízio durante o apagão”, avalia o engenheiro, morador do distrito Fazendinha, em Macapá.

13 cidades do Amapá ficaram no apagão por 22 dias
Foto: Mari Serrão

Energia volta ao normal, garante ministério

Em comunicado divulgado hoje, o Ministério de Minas e Energia informou que o fornecimento elétrico está normalizado com o funcionamento do 2º transformador da subestação Macapá. Isso ocorre desde a madrugada. Todos os 13 municípios afetados agora têm o serviço normalizado, garantiu a pasta.

“A energização de mais um transformador na subestação Macapá, transportado de Laranjal do Jari, integra um conjunto de ações que vem sendo desenvolvidas, coordenadas pelo Ministério de Minas e Energia, no âmbito do Gabinete de Gestão de Crise, juntamente com as instituições e agentes envolvidas”, afirmou o ministério.

Crédito na conta de luz

O Senado Federal aprovou, na noite de quinta-feira (19), um projeto de lei que garante “crédito equivalente ao valor cobrado na fatura mensal pela empresa distribuidora” aos afetados pelo apagão de energia elétrica no Amapá.

A matéria seguirá agora para a apreciação da Câmara dos Deputados.

O texto ainda prevê soluções caso novos apagões, como o ocorrido no estado, ocorram em outras unidades federativas do país.

“Fica assegurado crédito aos consumidores de energia elétrica dos estados e do Distrito Federal, residenciais, industriais, comerciais e rurais que tiverem o suprimento de energia interrompido com indicadores de continuidade causadores de calamidade pública”, afirma o relatório.

De acordo com a matéria, caberá a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) regulamentar “o mecanismo de ressarcimento ou de compensação entre os agentes envolvidos e a respectiva fonte de recursos, de forma que os custos integrais sejam solidariamente suportados pelos causadores do dano”. 

Ainda segundo o projeto aprovado, caso seja comprovada a culpa da Aneel em algum dos apagões, os recursos para a compensação financeira aos consumidores “advirão, prioritariamente, das receitas de multas aplicadas aos agentes do sistema”.

Ministério Público

O Ministério Público do Amapá (MP-AP) participou de uma reunião na Secretaria de Planejamento do Estado (Seplan), na manhã desta terça-feira (24), na qual discutiu o plano de reparação dos prejuízos causados pelo apagão. 

A proposta da Seplan é que cada Secretaria de Estado colabore na construção de um Plano Estratégico para auxiliar as diferentes áreas impactadas.

A ideia tem foco em projetos que passem por atendimento da saúde mental dos atingidos, suporte a setores econômicos e a empreendedores mais prejudicados pela crise.

(Com informações de Larissa Rodrigues, da CNN e do Ministério Público)