Najas, visons, morcegos, pangolins... os bichos que foram notícia em 2020

Em meio à pandemia da Covid-19, convulsões políticas nacionais e mundiais e desastres naturais, os animais ainda conseguiram roubar a cena várias vezes no ano

Luana Franzão*, da CNN, em São Paulo
18 de dezembro de 2020 às 05:00 | Atualizado 18 de dezembro de 2020 às 12:29
Foto: CNN

O ano de 2020 foi diferente de qualquer outro. Em meio à pandemia da Covid-19, transformações políticas nacionais e mundiais e desastres naturais, os animais também deram sua contribuição para movimentar o noticiário de 2020. Relembre os principais momentos.

Morcegos, pangolins e a Covid-19

O Instituto Smithsonian realiza amostragem de morcegos em Myanmar e no Quênia para investigar origens da Covid-19
Foto: Instituto Smithsonia/ Divulgação 

O evento mais marcante do ano foi a pandemia do novo coronavírus, que até o momento já infectou mais de 74 milhões de pessoas em todo o mundo. A suspeita é de que tudo tenha começado com um animal: o morcego.

Pesquisadores rastrearam o trajeto do SARS-CoV-2, vírus causador da Covid-19, a morcegos que vivem em regiões da Ásia. A hipótese lançada por especialistas é de que o vírus tenha sido transmitido de uma espécie de morcego (ainda não identificada pelos cientistas) para os pangolins, pequenos mamíferos com escamas que vivem no leste asiático e em regiões da África.

A carne de pangolim é vendida em alguns mercados na China, que comercializam carne de animais silvestres abatidos ilegalmente. Cientistas acreditam que um consumidor que estava em Wuhan, cidade chinesa onde primeiro se espalhou a doença, tenha ingerido carne de um pangolim infectado pelo vírus e contraído a doença.

Pangolim (Manis javanica)
Foto: Piekfrosch/Wikimedia Commons

Este fenômeno não surpreende os especialistas, que já supunham que epidemias poderiam ocorrer a partir de doenças oriundas de animais, principalmente por conta da destruição dos biomas em todo o planeta e o consumo ostensivo de carne.

O processo, chamado de spillover, ocorre quando um vírus sofre pequenas mutações até que seja capaz de infectar uma nova espécie. O spillover é raro entre mamíferos e humanos, mas acontece com mais frequência entre animais silvestres.

As doenças transmitidas a partir do acontecimento são chamadas de zoonoses. Entre as zoonoses mais conhecidas pela humanidade estão a febre amarela, a tuberculose, a raiva e o vírus HIV.

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Naja e o tráfico ilegal de animais silvestres

A Naja kaouthia que picou Pedro Krambeck e acabou revelando um esquema de tráfico de animais silvestres
Foto: Ivan Mattos -10-jul-2020/ Zoológico de Brasília

Outro animal perigoso que marcou o noticiário foi uma naja, espécie que possui um dos venenos mais letais dentre os répteis e podem chegar aos 1,80 metro de comprimento.

Embora façam parte da fauna de regiões próximas ao Norte da África e ao Sul da Ásia, foi no Distrito Federal que o estudante de veterinária Pedro Henrique Krambeck foi picado por uma Naja kaouthia que criava em casa, como animal de estimação.

O veneno das najas é neurotóxico, ou seja, ataca diretamente o sistema nervoso e pode deixar sequelas caso o tratamento não seja ágil. Krambeck foi internado em estado grave depois da picada e teve de ser tratado com um antídoto levado às pressas do Instituto Butantan, em São Paulo, para Brasília, local onde ocorreu o acidente.

O estudante Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkul, que foi picado por uma cobra naja no Distrito Federal
Foto: CNN (17.jul.2020)

A partir do caso, uma investigação descobriu um esquema de tráfico de animais selvagens para o Brasil em que foram encontrados alguns outros exemplares de najas traficadas ilegalmente, além de outros animais. O jovem, de 22 anos, chegou a ser preso e responde por tráfico de animais, maus tratos, associação criminosa e exercício ilegal da medicina veterinária. Outras 11 pessoas foram indiciadas.

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Lobo-guará na nota de R$ 200

Nota de 200 reais estampada pelo lobo-guará
Foto: Divulgação

Em agosto, o Banco Central anunciou que entraria em circulação uma nova nota R$ 200, a primeira desde a criação das notas de R$ 2 e R$ 5, em 2013. A novidade gerou muitas discussões dentro e fora do noticiário econômico.

O animal escolhido para estampar a nova cédula foi o lobo-guará, espécie tradicional do cerrado brasileiro e ameaçada de extinção. Apesar do visual charmoso com a pelagem vermelha e as patas escuras, a escolha dividiu as redes sociais — em que usuários advogavam a presença do vira-lata caramelo para estampar a nova nota de real

Apesar de parecer dócil, o lobo-guará é um predador selvagem e não gosta de ser incomodado por humanos. O lobo-guará também chamou a atenção alguns meses depois, ao dar uma voltinha em um shopping na cidade de Jataí, em Goiás.

Relembre o caso:
Lobo-guará é flagrado passeando em shopping em Goiás
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Lobo Guará em Shopping de Jataí (GO)
Foto: Reprodução / CNN

Nuvem de gafanhotos

Nuvem de gafanhotos devastou plantações na Argentina, mas não atingiu o Brasil
Foto: Baz Ratner/Reuters

Em setembro, os agricultores do Rio Grande do Sul ficaram apreensivos com a aproximação de uma nuvem de gafanhotos, com cerca de 40 milhões de exemplares e capaz de devastar plantações inteiras em minutos.

A nuvem se formou no Paraguai por insetos da espécie Schistocerca cancellata, um tipo de gafanhoto migratório que costuma formar estes enormes grupos para buscar alimento em caso de escassez no seu habitat natural. Eles consomem diferentes tipos de plantas, e portanto, podem atacar diferentes plantações.

Mas os agricultores gaúchos puderam respirar aliviados quando uma frente fria intensa tomou conta da região, fazendo com que a nuvem se dispersasse. Gafanhotos preferem climas mais quentes e secos para se reproduzir e viver, e portanto se separam em busca de melhores ambientes quando desafiados por temperaturas baixas.

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Vespas assassinas

A vespa gigante asiática é apelidada de "assassina" por eliminar colônias de abelhas e ter veneno suficiente para matar humanos com mais de uma picada
Foto: Shutterstock

A vespa-mandarina - também chamada de vespa-gigante-asiática - é a maior espécie de vespa do mundo, podendo atingir até cinco centímetros de comprimento. "Elas são como um desenho monstruoso com um enorme rosto amarelo-alaranjado", disse Susan Cobey, criadora de abelhas no departamento de entomologia da Universidade Estadual de Washington, em entrevista à CNN.

Elas receberam a alcunha nada lisonjeira de "assassinas" por conta de seu veneno. Um ser humano pode morrer se for repetidamente picado por esses animais em um espaço de minutos. Mas a dieta dessas criaturas é baseada em insetos menores, seiva de algumas espécies de plantas e mel de colmeias. A cena do crime, entretanto, ainda é um pouco assustadora - quando se alimenta de abelhas, por exemplo, costuma decapitar os animais e deixar as evidências para trás.

As vespas-mandarinas, como sugere o nome, vivem predominantemente na região do Sudeste Asiático. Elas viraram notícia neste ano após aparecerem nos Estados Unidos, onde foram encontrados ninhos das espécies. Segundo pesquisadores, essa presença pode ser muito prejudicial à biodiversidade de um país: as vespas podem dizimar colônias de abelhas, espécie que já está em risco e que é essencial para a preservação do meio ambiente.

Relembre o caso:
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Visons e a nova cepa do novo coronavírus

Visons podem contrair o novo coronavírus
Foto: toadienaulls/ Pixabay

Visons são pequenos animais com uma pelagem exuberante, usada para fazer casacos de pele. O animal vive em regiões frias do planeta, como o Norte da Europa. Dinamarca, Noruega, Estônia e outros países possuem fazendas de criação de visons-europeus onde vivem milhares deles, destinados à produção de itens de luxo.

Foi justamente em uma dessas criações na Dinamarca onde foi encontrada uma nova cepa do novo coronavírus. A nova variação chegou a infectar doze pessoas que tiveram contato com o animal, fazendo com que o governo do país ordenassem o abatimento de todos os visons criados em fazendas. Mais de 10 milhões de animais foram mortos como forma de conter a proliferação.

Passado o medo causado pelo coronavírus, um novo capítulo foi aberto. Moradores que viviam em regiões de criação dos animais começaram a relatar a aparição de "visons-zumbi", que estavam surgindo na superfície das covas onde foram enterrados.

Funcionários do governo da Dinamarca abrem vala coletiva para depositar visons mortos em área militar perto de Holstebro
Foto: Morten Stricker/Dagbladet Holstebro Struer/Jysk Fynske Medier/Ritzau Scanpix/Reuters

A explicação do fenômeno é menos sobrenatural do que o relatado pelos dinamarqueses. O ressurgimento ocorre por conta da elevada quantidade de gases produzidos pela decomposição dos cadáveres dos animais, que foram enterrados aos milhares em valas comuns.

Os gases acabam ocupando muito espaço no subsolo e empurrando alguns visons abatidos para a superfície novamente. Os habitantes fizeram apelos pela retirada das valas de regiões próximas a áreas residenciais, por medo de contaminação pela Covid-19. As autoridades afirmaram que as valas são seguras e estão sendo vigiadas, mas estudam a incineração dos cadáveres.

Relembre o caso:
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Acompanhe a Retrospectiva de 2020 pelo site da CNN Brasil.

Cobras voadoras

Pesquisa mostra como as "cobras voadoras" se movimentam pelo ar
Foto: Jake Socha


Um grupo de cientistas da Virginia Tech (Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virginia) publicou uma nova pesquisa sobre a Chrysopelea paradisi — conhecida como serpente da árvore do paraíso — para explicar seu movimento de deslizar pelo ar.

Todas as serpentes ondulam quando se movimentam no chão, mas as “cobras voadoras” o fazem no ar. “Então por que elas fazem isso?”, questionou o pesquisador Isaac Yeaton.

Uma hipótese era que esse era um padrão motor básico das cobras desenvolvido ao longo de milhões de anos, mas ele explicou que agora se entende que a ondulação estabiliza o deslizamento e impede que esses animais caiam, além de permitir que elas percorram distâncias maiores.

Relembre o caso:

Cobras voadoras? Veja como elas conseguem deslizar pelo ar

 

Morcego gigante

O morcego-dourado-filipino pode chegar a 1,7 metro de comprimento com as asas abertas
Foto: Animalspot

Presenciar um morcego com um metro de altura, com envergadura entre 1,5  e 1,7 metro, pode assustar, mas é comum para moradores da zona rural das Filipinas, próxima a florestas tropicais, que já estão acostumados com a presença do morcego-dourado-filipino.

O Acerodon jubatus - nome científico do animal -  pode voar a até 1.100 metros de altura e percorrer 40 quilômetros. Ele recebe o nome de ‘dourado’ devido à cor de sua pelagem: a cabeça loura e o restante do corpo com pêlos escuros. 

Relembre o caso:
Este é o morcego-dourado-filipino, que pode chegar ao tamanho de um ser humano

A espécie, entretanto, é quase inofensiva para seres humanos. Ele se alimenta apenas de frutas. Mas é preciso ter cuidado no manejo do animal, pois ele pode transmitir doenças para pessoas e outras espécies de mamíferos.

O morcego-dourado-filipino pode aterrorizar as pessoas pela aparência, mas é um aliado importante da natureza. Por causa de sua alimentação e capacidade de vôo, ele espalha sementes de diversas espécies de árvores frutíferas pelas florestas tropicais, recebendo até mesmo o apelido de ‘semeador-silencioso’. A falta deste animal no meio-ambiente poderia prejudicar a biodiversidade das florestas filipinas.

*sob supervisão de Leonardo Lellis