Pastor alvo de operação da PF contra intolerância pediu massacre de judeus

Religioso desejou que o povo judaico fosse ‘envergonhado como na Segunda Guerra’

Isabelle Saleme e Stéfano Salles, da CNN, no Rio de Janeiro
12 de março de 2021 às 21:26
Polícia Federal operação
Policiais federais cumprem mandado em operação contra pastor acusado de crime de racismo contra judeus
Foto: CNN Brasil

 A CNN teve acesso aos vídeos apresentados na notícia-crime que embasa a Operação Shalom, deflagrada nesta sexta-feira (12) no Rio de Janeiro, pela Polícia Federal, para combater a prática do crime de racismo contra judeus.

Nas imagens, o pastor Tupirani da Hora Lores, chefe da Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo, pediu que Deus massacre os judeus, que os humilhe, e clamou que “eles sejam envergonhados, como na Segunda Guerra, e não tenham forças para levantar suas servis”. 

A operação foi de busca e apreensão na sede da igreja, no Santo Cristo, bairro da Região Central da cidade. As imagens são todas de um mesmo culto presencial da Geração Jesus Cristo em junho de 2020 e, na ocasião, geraram ampla repercussão internacional, principalmente em Israel.

Com elas, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) e a Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj) levaram o caso ao Judiciário. 

Em um momento do vídeo, o pastor amaldiçoa os judeus. “Glorifica o teu nome, Deus. Malditos sejam os judeus. Malditos seja, que cuspiram e que continuam assassinando Jesus Cristo até hoje! Malditos sejam eles!”, bradava ao microfone Tupirani da Hora Lores. 

Em um outro trecho, o pastor cobra uma ação divina contra os judeus, e os critica. “Ó Deus, como tu fizeste na Segunda Guerra Mundial, tu tens dito que faria novamente. E se depende de nosso clamor e de nossa oração, justiça, justiça, justiça! A esses arrogantes, prepotentes, que até hoje cospem na cara de Jesus Cristo”. 

O pastor falou ainda sobre a disputa pelas terras do estado de Israel e a diáspora judaica. “Eles saíram às nações para compartilhas das suas heranças em benefício próprio, deitaram com as prostitutas, senhor. Fizeram alianças, serviram ao mal e desejaram se alimentar com as bolotas e alfarrobas dos porcos, Deus. Porquanto, ficaram sem nada”, concluiu. 

Advogado do Conib e da Fierj, Ricardo Sidi aprovou a operação. “Nós pedimos a prisão do pastor, e o Ministério Público aprovou, mas ele só não foi preso por causa das restrições que o Judiciário tem apresentado para prisões em meio à pandemia, que agora têm sido destinadas apenas àqueles crimes que eles consideram mais graves”, afirma. 

Tupirani foi condenado em 2009 por intolerância religiosa, o primeiro a receber uma condenação por esse crime no país. Quatro anos depois, ele e outros fiéis da Igreja Geração Jesus Cristo foram presos por racismo, homofobia e xenofobia. A ação desta sexta-feira foi dirigida pela Delegacia de Crimes Cibernéticos, pelo fato de os vídeos serem postados em redes sociais. 

De acordo com a Polícia Federal, desta vez o pastor vai responder prática ou incitação de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, e de discriminação religiosa. A pena pode chegar a cinco anos de prisão, sem excluir pagamento de multa. O Brasil é signatário de tratados e acordos internacionais para combater e criminalizar condutas racistas ou discriminatórias.