Sepultamentos no Rio disparam 40% no 1º trimestre e cemitérios aceleram expansão

Pedro Duran, da CNN, no Rio de Janeiro
06 de abril de 2021 às 22:18 | Atualizado 06 de abril de 2021 às 22:46

Os sepultamentos nos 13 cemitérios públicos e oito privados da cidade do Rio de Janeiro saltaram 40% do primeiro trimestre de 2020 para o mesmo período de 2021. O levantamento da Secretaria Municipal de Conservação da Prefeitura do Rio de Janeiro feito a pedido da CNN aponta que a diferença foi de quase 6 mil enterros e cremações entre um período e outro. Pelo menos nove cemitérios estão abrindo mais espaço, parte disso para dar conta dessa nova demanda.

Em 2020 foram 14.732 sepultamentos. No começo de 2021, 20.636. Na prática, o mês de fevereiro teve uma redução nos sepultamentos em solo carioca, mas o mês de março mostrou uma nova aceleração. Em janeiro de 2021 foram 7.375 mortes, em fevereiro o número caiu 20% e foram contabilizado a 5.943 sepultamentos. Em março, o número voltou a subir 23%, a um patamar semelhante a janeiro, com 7.318 velórios realizados nos 21 cemitérios cariocas.

Os números não são relativos apenas a mortes por Covid-19, mas a todos os casos de pessoas enterrados ou cremadas no Rio. Ou seja, se uma pessoa morreu na cidade do Rio mas foi velada e sepultada no interior do estado ou em outro estado, ela não estará nesta conta. Por outro lado, corpos trazidos de outros estados e sepultados no Rio, entram na estatística.

Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Foto: Pedro Duran/CNN

 

Com a Bíblia na mão, o cuidador de idosos Márcio Coutinho se despede do tio Aureliano, que morreu aos 75 anos, vítima do coronavírus. A família não pôde fazer velório e foi orientada a reduzir o número de pessoas na despedida, ao ar livre. “Essa união, nesse momento triste que a pessoa tá passando, essa união que faz toda diferença. Ainda que distantes, devido à situação. Esse mal vai passar e isso tudo servirá de reflexão”, diz ele. O sepultamento de Aureliano foi acompanhado pela CNN no fim da tarde desta terça-feira, 6/4. Ele foi uma das nove vítimas de Covid-19 enterradas no Caju de um total de 35 sepultamentos.

Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Foto: Pedro Duran/CNN

Em meio à saudade, o arrependimento bateu para o aposentado José Carlos Aguiar. Ele perdeu a irmã, Mirian, aos 75 anos. A família toda mora na mesma avenida e os parentes estavam visitando uns aos outros com frequência. “Nós nos descuidamos muito muito muito. O recado que eu tenho que dar para todos é que se cuidem porque você só sente a dor quando chega dentro da tua casa. Enquanto você não sente você se descuida”, disse ele à CNN.

A primeira morte no estado do Rio de Janeiro foi de uma empregada doméstica que pegou coronavírus trabalhando. A patroa dela havia viajado para a Itália, país onde, àquela altura, o vírus se espalhava desenfreadamente. A mulher de 63 anos, no entanto, acabou morrendo na cidade de Miguel Pereira, no sul do estado, no dia 17 de março de 2020.

O estado do Rio de Janeiro foi um dos mais castigados pelo coronavírus, com pessoas morrendo à espera de um leito de UTI. Nos dados atualizados nesta segunda-feira (5/4), a Secretaria Estadual de Saúde contabilizava 640 pacientes diagnosticados com Covid-19 na fila de espera por uma vaga na UTI.

Silvio Cavalcante veio para o Rio de Janeiro ainda criança com a mãe. Natural de João Pessoa, na Paraíba, ele era auxiliar de manutenção até a pandemia começar, quando foi demitido. Um amigo o convidou pra trabalhar como sepultador no cemitério do Caju. Ele aceitou a proposta e, um ano depois, mudou completamente a forma de enxergar a dor do outro.

O papel de Silvio é rebocar as gavetas onde são colocados os caixões no cemitério vertical, incluindo de quem morreu com coronavírus. Ele vai para o cemitério sem nenhum pertence pessoal, ‘só com a roupa do corpo’, diz. Quando chega em casa, logo tira todo o uniforme e lava. Mas ainda assim, continua sentindo o que viveu no dia de trabalho. “Porque nós somos humanos, né. Eu tô hoje desse lado e amanhã quem sabe se tem uma família alguém da minha pessoa do outro lado”, disse à CNN.

Obras de expansão

No cemitério do Caju, o maior do Rio de Janeiro, já são seis blocos com 384 gavetas cada erguidos desde 2016. Metade deles foi construída durante a pandemia. Como esse, outros cinco cemitérios da concessionária Reviver e três da concessionária RioPax estão em obras de expansão. No caso da Reviver, o movimento foi acelerado por causa do coronavírus.

“Eu acredito que nosso plano deu bastante certo na primeira onda que a gente teve aqui no Rio de Janeiro, pelo menos no nosso cemitério. Em questão de vagas de sepultamento, todos aqui foram sepultados [em valas ou gavetas] individuais, não teve sepultamento coletivo”, diz Mauricio Milano, gestor de registro e processos da Reviver.

Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Foto: Pedro Duran/CNN

O plano de contingência da concessionária para o Caju prevê ainda que, no caso do movimento de velórios, cremações e enterros aumentar significativamente, o funcionamento possa ser 24 horas, com sepultamentos noturnos, rotas de circulação para veículos que transportam vítimas da Covid-19 e uma lista de ‘emergência’ feita pelo departamento de recursos humanos. A lista tem o contato de cerca de 100 pessoas que moram nos entornos do Caju, na zona Norte do Rio, e já estão cadastradas para um eventual mutirão de emergência.

No caso da RioPax, que tem seis cemitérios, estão em obras três deles. Campo Grande, Irajá e Inhaúma. A concessionária informou à CNN que a expansão já era prevista antes da pandemia. Já os protocolos de sepultamento também foram alterados nos locais administrados por eles.