Realidade das mães refugiadas no país: informalidade, medo e despejo de imóveis

No país, há cerca de 71 mil refugiados. No Rio, venezuelanos, angolanos, congoleses, haitianos, colombianos, cubanos e sírios compõem maior parte dos apátridas

Adriana Freitas, da CNN, no Rio de Janeiro
09 de maio de 2021 às 10:02 | Atualizado 11 de maio de 2021 às 12:44
Família venezuelana que mora em São Caetano do Sul
A refugiada venezuelana Yilmary de Perdomo, 37 anos, passa o Dia das Mães na companhia dos três filhos e do marido em São Caetano do Sul (SP)
Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

 

Há cinco anos no Brasil, a refugiada venezuelana Yilmary de Perdomo, 37 anos, passa o Dia das Mães na companhia dos três filhos e do marido, comemorando a data na casa em São Caetano do Sul, São Paulo. Festejar a data em família sob a segurança de um teto, no entanto, não é uma realidade comum a todas mães que deixaram o país de origem para tentar a vida no Brasil.

De acordo com a Agência da ONU para Refugiados, ACNUR, nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo, muitas mães solteiras e casadas precisaram sair às pressas das casas, nas áreas de comunidade durante a pandemia por não conseguirem pagar os aluguéis de imóveis pertencentes ao tráfico, e no caso do Rio, também à milícia.

Segundo o levantamento da ACNUR, são nas comunidades do Zona Oeste e da Zona Norte onde moram a maior parte dos refugiados na capital fluminense. No Rio de Janeiro, os venezuelanos, angolanos, congoleses, haitianos, colombianos, cubanos e sírios compõem a maior parte dos apátridas que se mudam para cá na busca de uma vida melhor. No país, há cerca de 71 mil refugiados.

De acordo com a chefe da regional sudeste da ACNUR, Maria Beatriz Nogueira, a impossibilidade de refugiado (a) em apresentar fiador e outras garantias o/a levam a alugar imóveis do crime organizado.

“A realidade do despejo é comum, é uma dinâmica muito forte, principalmente no último ano. O que dói é que são pessoas que conseguiram se inserir no mercado de trabalho e, depois de muito esforço, montaram uma casa num novo país — com toda a carga de sofrimento passado. Muitos refugiados abrem negócio, principalmente com a gastronomia, e com a pandemia passaram a enfrentar problemas financeiros”, conta Maria Beatriz.

Apesar das dificuldades, sem poder participar de feiras e organizar buffets em empresas, Yilmary investiu no delivery de comida venezuelana — que inclui pratos típicos como a cachapa e as arepas. “Não é fácil, mas mantenho a persistência e muito trabalho”, resume.

Crises econômicas e as sistemáticas desigualdade e violência de gênero têm impacto na vida das mulheres que são as principais cuidadoras e chefes de família. Sem opções, elas carregam seus filhos durante a viagem para o exílio quando se veem ameaçadas na terra de origem. Pela média global, 40% da população deslocada são crianças.

Muitas gestantes se mudam para cá em busca de asilo e os bebês que aqui nascem e ganham cidadania brasileira. É o caso dos indígenas da etnia Warao e vêm da Venezuela com muita frequência se estabelecer no Brasil. “E infelizmente a mortalidade materna é grande, no caso das gestantes refugiadas.”

De acordo Maria Beatriz, da ACNUR, a pandemia é mais uma emergência que coloca mulheres em risco e aumenta a vulnerabilidade. “Meninas refugiadas têm maior probabilidade de abandono escolar. E as mulheres, dependentes de empregos precários, perdem a fonte de renda, sem falar na maior exposição à violência de gênero”, comenta.

Outro agravante para as famílias refugiadas neste momento é a maior dificuldade de acesso à escola — que tradicionalmente ajuda toda a família a se inserir na comunidade, principalmente com o aprendizado do português — porém com a falta de inclusão digital, muitas crianças acabam ficando sem aulas.

“A ACNUR e parceiros costumam trabalhar oferecendo ajuda financeira para os refugiados em vulnerabilidade, pois possibilita maior autonomia, mas durante a pandemia, devido à gravidade da situação distribuímos cestas básicas”, conta Maria Beatriz.