Projeto do MIT busca mapear em 3D a Rocinha, maior favela do Brasil

Escaneamento a laser inova ao registrar medidas de distância, altura, largura e inclinação e pode ajudar poder público na definição de políticas na área

Carin Petti, colaboração para a CNN
21 de maio de 2021 às 04:30
Favela da Rocinha
Favela da Rocinha, no Rio, a maior do Brasil
Foto: Diego Herculano/picture alliance via Getty Images

A Rocinha, maior favela do Brasil, despertou o interesse de pesquisadores do MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos), uma das principais universidades do mundo. 

O Senseable City Lab, laboratório do MIT especializado em tecnologias digitais e urbanismo, divulgou no fim de abril os primeiros resultados de um projeto de mapeamento digital da Rocinha, batizado de Favelas 4D.

Com cerca de 100 mil pessoas vivendo em 838 mil metros quadrados, a Rocinha enfrenta, como outras comunidades Brasil afora, problemas crônicos de falta de saneamento básico, energia e ventilação adequada em grande parte de suas ruas, becos e vielas. 

O sistema do MIT cria, com dispositivos de escaneamento a laser,  imagens em 3D do entorno e possibilita o registro de dimensões, distâncias e elevações das ruas, vielas e construções. O resultado da tecnologia representaria um avanço em relação ao mapeamento convencional da Prefeitura do Rio, realizado pelo Instituto Pereira Passos (IPP). 

De acordo com o urbanista Fábio Duarte, coautor da pesquisa e professor do Departamento de Estudos Urbanos e Planejamento do MIT, há dois pontos fundamentais de avanço no projeto da universidade com relação ao mapeamento que é feito pela prefeitura atualmente – e que ele considera bom. 

O primeiro é técnico. As imagens para o mapeamento da prefeitura são coletadas com fotografias e laser -- ambos feitos de avião.  “Em ambientes complexos como favelas, o laser de base aérea [utilizado pelo IPP] tem várias obstruções (vielas estreitas, cobertura vegetal, etc.), o que faz com que o método terrestre seja mais preciso para essas áreas”, explica Duarte.

O segundo avanço é o social: o levantamento do MIT é feito com técnicos que caminham pelos assentamentos, não com drones ou aviões, e isso pode ser também uma forma de envolver a comunidade em seu próprio mapeamento.

Projeto do MIT, dos EUA, mapeia a Rocinha, maior favela do Brasil, em 3D
Foto: MIT Senseable City Lab

Para Duarte, as informações do mapeamento digital podem ajudar o poder público a definir projetos de melhorias em diversas frentes, como ampliação das redes de luz, água e esgoto, melhora de ventilação e acessibilidade, combate a deslizamentos de terra, coleta de lixo, identificação de danos estruturais nas construções, regularização fundiária e criação de praças e escadas. 

Nesta primeira fase, uma empresa parceira do projeto captou imagens de uma pequena área da favela, composta por uma rua e uma praça. “Com o trabalho, confirmamos a hipótese de que conseguiríamos fazer o mapeamento em 3D como nenhuma outra tecnologia possibilitaria”, diz Duarte.  

O mapeamento é feito com dispositivos que possibilitam o escaneamento, feito a partir do solo, com uma tecnologia conhecida como Lidar (acrônimo para Light Detection and Ranging). O sistema registra, com scanners 3D, a distância entre o sensor e as estruturas escaneadas. O laser emitido por um dispositivo giratório bate em determinada estrutura e volta até o aparelho.  

Pelo método, são registrados 300 mil pontos por segundo, que, juntos, formam um mapa digital. O aparelho também detecta pessoas, mas as imagens delas são apagadas.   

Projeto de R$ 300 mil 

É a primeira vez que o laboratório do MIT faz esse tipo de trabalho em uma favela. O Senseable City Lab negocia projetos em dois países da África, em que pretende aliar a tecnologia usada na Rocinha com imagens de satélite. “Propomos combinar mapeamento com satélites, que dão excelente precisão horizontal do crescimento das favelas, com tecnologias Lidar, que dará o crescimento tridimensional dos assentamentos”, diz Duarte.   

Para que o restante da Rocinha também seja registrado, é necessário um investimento de R$ 300 mil. Ainda não há definição sobre os recursos. Na busca por verba, instituições internacionais, terceiro setor e poder público são possibilidades analisadas, segundo o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, que participou do projeto antes de se tornar, neste ano, secretário municipal de Planejamento Urbano do Rio de Janeiro.  

“O escaneamento a laser permite o desenvolvimento de estratégias para tornar a cidade mais inclusiva para assentamentos informais e possibilita pesquisas sobre formas alternativas de construção”, argumenta Fajardo.  

Moradores são céticos 

A quase oito mil quilômetros do laboratório do MIT, os moradores da Rocinha são céticos quanto ao uso do projeto para melhorias na comunidade que há anos atrai atenção de estrangeiros – de turistas a pesquisadores.  

“Nosso grande problema não é a falta de mapeamento, mas a existência da favela em si, com 30 valas de esgoto a céu a aberto, falta de energia elétrica e de água encanada”, afirma o presidente da ONG Rocinha.org e diretor da rádio comunitária Rocinha FM, Ocimar dos Santos, nascido e criado na comunidade. “Não queremos obra para gringo ver, queremos água encanada e energia elétrica”, acrescenta.   

Projeto de mapeamento digital da Rocinha, desenvolvido por pesquisadores do MIT, pretende ampliar a área registrada da favela
Foto: MIT Senseable City Lab

José Fernandes, o Xavante, primeiro-secretário da Associação dos Moradores da Rocinha, concorda. “Já existe um plano do governo do Estado para a Rocinha. No ano passado, começaram as obras previstas, de água, luz, esgoto e pavimentação, numa pequena área. Mas depois tudo parou por falta de dinheiro. Como o Estado está falido, seria preciso de ajuda financeira do governo federal.”  

Pouca ventilação e iluminação 

Representantes da comunidade reconhecem, porém, que o mapeamento detalhado seria importante e poderia ajudar no planejamento. Por permitir o registro da altura das construções e largura das ruas, o sistema poderia ser usado para evitar a formação de cânions urbanos – passagens onde o adensamento das construções dificulta a ventilação e iluminação natural.  

Com a ajuda das imagens, seria possível proibir novas construções ou remover estruturas em determinadas áreas para facilitar a circulação do ar e a entrada de luz. 

De acordo com Ocimar dos Santos, menos de 10% das vias da comunidade têm largura suficiente para a passagem de carros. O restante é formado por becos e vielas – alguns com até quatro quilômetros de comprimento. “Com pouco sol e ventilação insuficiente, muitos lugares têm mofo, o que causa doenças respiratórias”, afirma ele.  

A realidade da Rocinha está longe de ser única. Dos quatro bilhões de pessoas que vivem em cidades no mundo, mais de um bilhão moram em assentamentos informais, construídos sem planejamento, revelam dados do Banco Mundial. “Esse crescimento espontâneo traz consequências danosas no longo prazo, como problemas de infraestrutura urbana e danos à saúde pública”, afirma o professor Fábio Duarte, do MIT.  

“A comunidade cresce todo dia” 

O emaranhado de caminhos, somado à sinalização inadequada e à numeração desencontrada, atrapalha também a chegada de correspondência na Rocinha, o que fez surgir o empreendimento Carteiro Amigo. Elaine Silva, cofundadora da empresa, conta que ela e os dois sócios tiveram a ideia de abrir o negócio, em 2000, depois de, mesmo vivendo na favela, terem enfrentado dificuldades em encontrar endereços quando trabalharam na coleta de dados para o censo do IBGE.  

Atualmente a empresa leva diariamente cerca de 850 cartas e 70 encomendas, recolhidas em sua sede, até as casas de moradores que pagam assinatura mensal de R$ 14 pelo serviço. Para dar conta da demanda, os nove entregadores trabalham com ajuda do mapa feito à mão por Elaine e seus dois sócios.  

“Fizemos o nosso mapeamento na marra porque aqui nenhum outro mapa é confiável”, diz ela. “A prefeitura tem um mapa, a [concessionária de energia] Light tem outro, e o Estado, outro – todos feitos para ajudar em obras locais. Mas nenhum deles é completo.”    

O trabalho cartográfico não tem fim. “Estamos sempre atualizando os traçados porque a comunidade cresce todo dia”, conta Elaine. “As ruas podem ficar sem saída de uma hora para a outra com a construção de novas casas.” 

O mapeamento da Rocinha, feito pelo MIT, é feito com dispositivos de escaneamento a laser
Foto: MIT Senseable City Lab

Na opinião da empresária, o mapeamento proposto pelos pesquisadores do MIT, se acrescido do nome das ruas e numeração das casas, poderia facilitar as entregas na área. Na sua avaliação, uma das grandes vantagens do mapeamento digital seria a identificação de novas casas erguidas sobre construções já existentes – tarefa possível graças às imagens em três dimensões. “Sem muito espaço para crescer para os lados, a favela cresce para cima, de um jeito desordenado”, comenta.  

Em comunidades como a Rocinha, o crescimento vertical tem esta peculiaridade: a compra de lajes para a construção de novas moradias. A prática costuma impedir o registro e dificultar a venda das propriedades construídas – regularização que poderia se tornar viável com a implementação da nova ferramenta no entender dos autores do projeto do MIT.