No Brasil, 18% dos jovens entre 16 e 17 anos já estavam sem estudar em 2019

Fechamento das escolas deve ampliar número de alunos que deixam de estudar no país

Rodrigo Maia, da CNN, em São Paulo
31 de maio de 2021 às 21:53
Escola vazia em Minas Gerais
Ministério Público realiza vistoria sanitária em escola vazia em Minas Gerais
Foto: ALEX DE JESUS/O TEMPO/ESTADÃO CONTEÚDO

A educação brasileira ainda deve sofrer fortes impactos negativos gerados pela falta de aulas nas escolas em todo o território nacional, em especial nas regiões mais pobres. Depois de 14 meses de pandemia, os estados que já tinham um percentual alto de abandono ainda não reabriram suas escolas. 

É o que revelam os dados do Indicador de Permanência Escolar, lançado nesta segunda-feira (31) pelo instituto Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional). Alguns estados que continuam sem aulas presenciais já estavam com um terço dos jovens fora da escola, e a situação causada pela pandemia deve agravar ainda mais esse cenário. 

Foto: CNN

A metodologia utilizada pelo Iede é diferente em relação a outros indicadores. Em vez de pegar um percentual apenas do ano anterior, o Indicador de Permanência Escolar consegue acompanhar o percurso dos alunos.

“Esse método traz uma discussão mais completa sobre a educação, com um olhar para o Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, que mede a qualidade do aprendizado no país. O acompanhamento é feito por geração. Agora, estamos analisando a situação, por exemplo, dos nascidos em 2003. Dessa forma, conseguimos pensar em ações de atendimento e permanência para ajudar a gestão da escola”, afirmou Ernesto Faria, diretor do Iede.   

A realidade de milhares de jovens brasileiros nesta faixa etária traz uma combinação perigosa para a educação do país. São potenciais estudantes que estão se deparando com escolas fechadas e, ainda, com a perda de renda de suas famílias. Os dois fatores fazem com que o jovem precise deixar os estudos para trabalhar e colocar dinheiro dentro de casa.  

Desigualdade

Esse cenário potencializa a desigualdade e revela que a pandemia atinge de forma mais cruel os vulneráveis. “A principal estratégia para minimizar o abandono é a proximidade, isto é, a capacidade de a escola acompanhar o estudante para articular e sistematizar as informações sobre a realidade dele. O impacto em relação à desigualdade tem sido brutal”, afirmou Faria. 

Um dos riscos que o abandono e a falta de aulas podem causar é a cultura da reprovação e da repetência. Segundo Ernesto Faria, as escolas podem reprovar os estudantes nos próximos anos por um nível baixo de aprendizagem dos alunos. E o abandono pode aumentar ainda mais. 

“Precisamos dar suporte e fortalecer as redes para ajudar na gestão da escola e na tomada de decisão sobre o futuro dos estudantes. Secretarias municipais e estaduais, além do governo federal, precisam dar o suporte, em especial para os municípios pequenos”.

Futuro da educação

Sobre o futuro da educação nesta perspectiva de jovens fora das escolas, Faria diz que é difícil fazer uma estimativa. Porém, o percentual médio do Brasil, que hoje está em 18% de alunos fora das escolas, pode chegar a 30%. 

Outro problema que o fechamento das escolas pode causar é o abandono também nos anos iniciais, de crianças entre 5 e 12 anos, situação que o Brasil já havia superado. Contudo, quando o assunto é a reabertura das escolas, Faria é cuidadoso.

“Não adianta voltar as aulas presenciais sem um diálogo com os professores, sem estrutura sanitária e vacinação. As redes de ensino deveriam ter bons mecanismos de gestão para registrar quais alunos estão fazendo as atividades e participando das aulas. Isso já ajudaria muito a curto prazo. A solução imediata para evitar o abandono não precisa esperar as vacinas, mas as escolas, mesmo de forma on-line, precisariam ter proximidade de seus alunos”.