Projeto Ilhas do Rio termina última etapa de restauração ecológica das Cagarras

Experimento pioneiro no país servirá como piloto para reflorestamento de outros ambientes insulares

Adriana Freitas, da CNN, no Rio de Janeiro
07 de julho de 2021 às 20:04
Ilha Cagarras
Experimento pioneiro no país, o projeto também servirá como piloto para o reflorestamento de outras ilhas brasileiras
Foto: CAIO SALLES/PROJETO ILHAS DO RIO

Além da paisagem do Morro Dois Irmãos, o visual do Arquipélago das Cagarras dá um charme especial à Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, que só quem a frequenta entende e sabe descrever. Ao completar dez anos, o projeto Ilhas do Rio concluiu a última etapa do replantio para a restauração ecológica das Cagarras – além da retirada da espécie exótica africana do capim-colonião que dominou grande parte da vegetação da região.

Desde 2010, a 5 km da praia, o Monumento Natural formado pelas ilhas Cagarra, Filhote da Cagarra, Palmas, Comprida, Redonda e Filhote da Redonda (com uma área de 91,20 hectares) passou a ser uma Unidade de Conservação. “Ao longo dos anos, não havia nenhum controle, a área servia de acampamento de pescadores e acabou sendo desmatada”, contou o pesquisador Massimo Bovini. 

O projeto Ilhas do Rio inicialmente fez o inventário das espécies de fauna e flora originais das ilhas. Mais de 600 espécies de animais e plantas foram registradas, entre elas, algumas raras, endêmicas e também inéditas para a ciência. A pesquisa possibilitou descobertas curiosas, como a de uma espécie de perereca que só existe ali, que vive dentro de uma bromélia.

Esses pequenos anfíbios dependem da água da chuva que se deposita na planta para viver e se reproduzir. 

Desde 2010, a 5 km da praia, o Monumento Natural formado pelas ilhas Cagarra, Filhote da Cagarra, Palmas, Comprida, Redonda e Filhote da Redonda passou a ser uma Unidade de Conservação
Foto: CAIO SALLES/PROJETO ILHAS DO RIO

Experimento pioneiro no país, o projeto também servirá como piloto para o reflorestamento de outras ilhas brasileiras.

“Há sete anos estamos combatendo o capim que cresce muito rápido e queima fácil. É uma logística muito complicada porque é um ecossistema bem específico, fora do continente e sem nenhuma fonte de água doce. Durante todo esse tempo, estamos tentando estabelecer uma metodologia. Após a metodologia concluída é só reutilizá-la em outras ilhas de nossa costa”, explicou Bovini.

Os dados farão parte da estratégia de ação do plano de manejo em Unidades de Conservação do ICMBio.

Nas ilhas, a presença de espécies exóticas pode causar impactos severos, como competição severa, deslocamento de nichos, hibridização de espécies, predação e extinção. É o caso, por exemplo, do capim-colonião que se instalou na Ilha Comprida. Por isso, a necessidade da restauração da flora original.

“Com o sombreamento artificial (com o plantio de árvores) será possível descobrir se a sombra total realmente impede de alguma forma o crescimento do capim, facilitando, assim, o crescimento das mudas e dando oportunidade para as sementes das plantas nativas germinarem e crescerem naturalmente no local”, explica o pesquisador.  

Ao todo, foram plantadas mais de 350 mudas de quatro espécies nativas. A grande surpresa foi a volta dos pássaros que utilizam as árvores para descanso e ajudam a semear a terra de forma natural.

“É importante ressaltar que as Cagarras são o maior ninhal do Atlântico Sul de fragatas e atobás. Com a distância de apenas 5 km do continente as aves se alimentam ali e uma troca (de sementes) ocorre nessa viagem. Ali é um monumento natural com beleza cênica e voltando as espécies vegetais nativas, a fauna volta automaticamente e o local fica ainda mais belo. As Cagarras sempre foram um cartão postal e precisam ser preservadas”, conclui Massimo Bovini.

O projeto Ilhas do Rio inicialmente fez o inventário das espécies de fauna e flora originais das ilhas
Foto: CAIO SALLES/PROJETO ILHAS DO RIO