Em um mês, coronavírus duplica em municípios de até 200 mil habitantes

Já são 4.096 municípios que confirmaram ao menos um infectado pela doença

Luiz Fernando Toledo, Paula Martini e Roberta Russo da CNN

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Os casos de coronavírus mais do que dobraram em cidades brasileiras de até 200 mil habitantes no último mês. Mais frágeis em termos de infraestrutura hospitalar, já são 4.096 municípios que confirmaram ao menos um infectado pela doença, considerando dados tabulados pela CNN com informações do Ministério da Saúde até o dia 4 de junho. No dia 1 de maio, eram 1.985 municípios deste tipo.

Esse é o perfil da grande maioria dos municípios brasileiros: 5.416 deles têm menos de 200 mil habitantes. Nessas cidades vivem mais da metade da população brasileira: 112 milhões de pessoas, segundo estimativa de julho de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As regiões nordeste (1.553) e sudeste (1.107) são as que mais têm pessoas em cidades neste perfil (com infectados confirmados) até o dia 4 de junho. Quando se analisa a quantidade de casos, no entanto, a região norte se destaca e registra 68,4 mil infectados, à frente das cidades menores da região sudeste (40 mil), que tem registrado mais casos nos grandes centros. Já a região nordeste tem a maior quantidade de casos nesses municípios menores: 96,8 mil.

Em óbitos acumulados nas cidades menores, a região nordeste também lidera (3.395), seguida por norte (2.299), sudeste (1.994), sul (353) e centro-oeste (119).

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A situação do norte pode ser explicada, em parte, por causa da explosão de casos nos pequenos municípios do Amazonas, especialmente ao redor de Manaus. O Estado foi um dos primeiros a ver um colapso na rede hospitalar. Há 20 cidades no país com menos de 200 mil habitantes e mais de 1.000 casos da doença, e sete delas estão no Amazonas: Manacapuru (2.591 casos), São Gabriel da Cachoeira (2.232), Tefé (2.106), Coari (2.066), Santa Inês (1.993), Parintins (1.490), Tabatinga (1.072) e Benjamin Constant (1.020). Manacaparu também lidera em óbitos nas cidades deste porte: 101 mortes até o dia 4 de junho. Os outros também estão nas regiões norte e nordeste, com exceção de uma cidade da região sul, Lajeado, com 1.366 infectados por Covid-19.

Em maio, pesquisadores da Fiocruz publicaram uma nota técnica em que já alertavam para a interiorização de casos de coronavírus em todo o país. A doença chegou ao Brasil por meio de seus principais pontos de fluxo internacional, São Paulo, Rio e Brasília, e aos poucos vai se espalhando nas cidades menores. Entre os maiores problemas está a menor quantidade de leitos e de médicos disponíveis, com grande desigualdade entre as regiões do país. Em cidades de até 100 mil habitantes, por exemplo, a média de médicos por 10 mil habitantes é de 8,4, acima do recomendado (8/100 mil habitantes), segundo o levantamento feito pela Fiocruz, mas há municípios que têm uma taxa bem menor, de 2,2 médicos a cada 10 mil pessoas.

O documento da Fiocruz cita que áreas do interior da Bahia, Pará, Maranhão, norte do Mato Grosso, sul de Rondônia e oeste do Acre e Amazonas estão abaixo do esperado em quantidade de médicos. “Logo, evidencia-se a necessidade de contratação de profissionais nessas áreas, de forma a atender o mínimo de profissionais recomendado pelo parâmetro utilizado”, diz o estudo. “A população desses municípios não tem UTI, não tem respirador, não tem infraestrutura de saúde. Vão ter de se deslocar para os municípios maiores. Chegou primeiro nos maiores e está inchando o sistema de saúde”, diz o pesquisador epidemiologista da Fiocruz Diego Xavier.

No entorno das capitais: São Paulo e Rio de Janeiro

A cidade de Francisco Morato, na região metropolitana de São Paulo, pode ilustrar a fragilidade desses municípios no combate à doença. A cidade já registrou mais de 500 casos até o dia 4 de junho. O governo aponta que a ocupação de leitos de UTI já ultrapassou 95%.

A situação na cidade se complica por causa acesso ao transporte ferroviário e a ligação com a capital. “É o grande disseminador dessa doença. Em Francisco Morato mais de 35 mil trabalhadores saem da cidade para prestar mão de obra na capital e isso nos traz preocupação”, diz a prefeita Renata Sene.

Apesar de a Prefeitura garantir que o isolamento é feito na cidade, nossa reportagem flagrou parte do comércio que não é considerado essencial aberto e muita aglomeração nas ruas.

No Rio de Janeiro, a cidade de Queimados, na região metropolitana, é a que mais acumula casos entre as cidades menores: 989 infectados. Se analisarmos o número de casos dividido por habitante em todo o estado, inclusive com a capital, Queimados também se destaca: é a que mais tem casos por habitante, com uma população de 150,3 mil pessoas. O boletim mais recente do município, de 29 de maio, mostra que a cidade tem apenas 15 leitos de UTI, e 10 deles estavam ocupados.

A prefeitura atribui números a testagem em massa da população, já que 20 mil testes rápidos foram comprados pelo município. Em Queimados, as medidas de isolamento social foram prorrogadas e o comércio não está autorizado a reabrir totalmente, mas a CNN flagrou serviços não essenciais funcionando, como lojas de roupas, sapatos e acessórios para celulares. Quem precisa da renda vive um dilema: trabalhar para pagar as contas, mas se expor ao vírus.

Nas ruas, muitas pessoas circulam sem máscaras, apesar de uso da proteção ser obrigatório no estado. Filas para bancos, lotéricas e agências da caixa econômica também têm aglomerações. Falta também estrutura para atender os pacientes. Queimados só tem uma unidade de pronto-atendimento, e o hospital mais próximo fica no município de Nova-Iguaçu, a 16 km de distância. Em abril um centro de triagem de Covid-19 foi inaugurado na cidade, mas, até agora, o local tem apenas 20 leitos funcionando, sendo 13 de UTI. A unidade está em obras de ampliação e a promessa é chegara 60 leitos, mas as novas vagas só devem ser abertas no início do mês que vem.

A situação do município chamou a atenção do Ministério Público do Estado, que ingressou no dia 1 de junho com uma ação civil pública exigindo que a cidade crie um protocolo para testagem de casos, para evitar a subnotificação e faça contratações emergenciais de agentes comunitários de saúde em quantidade suficiente. “Os números de casos em Queimados são crescentes, sendo preocupante a situação deste município, especialmente se considerarmos a extrema fragilidade da sua rede assistencial”, escreveu a promotora Isabel Horowicz Kallmann.

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