Lava Jato: delegado é acusado de receber propina de R$ 2 milhões de ‘Rei Arthur’


07 de março de 2020 às 17:10
Apreensão de R$ 100 mil pela PF do RJ em operação da Lava Jato

PF apreendeu cerca de R$ 100 mil em um posto de gasolina cujos sócios eram alvo de busca da Operação Titereiro

Foto: Polícia Federal - 05.mar.2020/ Divulgação

O endereço do delegado Ângelo Ribeiro de Almeida Júnior está entre os alvos das buscas determinadas pelo juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, no âmbito da Operação Titereiro, desencadeada na quinta-feira (5).

Segundo a força-tarefa da Lava Jato, Almeida Júnior teria recebido propina de R$ 2 milhões de Arthur Soares, o “Rei Arthur” — empresário investigado por compra de votos para a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

A Procuradoria indica que o dinheiro foi pago para beneficiar o empresário em inquéritos e supostamente entregue por meio do advogado Danilo Botelho dos Santos, filho do ex-secretário nacional de Justiça Astério Pereira dos Santos (do governo Michel Temer), preso por ordem de Bretas na quinta.

Entre os principais alvos da ação está o ex-secretário Astério, preso preventivamente sob suspeita de ser sócio oculto de duas empresas que forneciam “quentinhas” à Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) e ao Departamento Geral de Ações Sócio Educativas (Degase).

As empresas ligadas a Astério teriam faturado cerca de R$ 20 milhões, dos quais R$ 2,9 milhões acabaram repassados a conselheiros do Tribunal de Contas do Estado como propina. Os investigadores atribuem a Astério, na Operação Titereiro, o papel de “manipulador de rede de laranjas, feito marionetes”.

Lavagem de dinheiro

Bretas mandou prender, além de Astério, outros oito investigados, entre eles o filho do ex-secretário, Danilo Botelho. Este é acusado de integrar organização criminosa supostamente chefiada pelo pai por lavagem de dinheiro.

O juiz federal indicou ainda que Botelho também teria auxiliado “Rei Arthur” no pagamento de propina para o delegado Almeida Júnior. O magistrado já havia destacado indícios de que o pai de Botelho ajudou “Rei Arthur” a fugir para os Estados Unidos a partir de informações privilegiadas. O ex-sub-secretário da Sead Vinícius Lips afirmou que Astério e Arthur eram “muito amigos”.

O delator que revelou a suposta ajuda de Astério a “Rei Arthur” também apontou a relação com Botelho. Ricardo Siqueira Rodrigues, sócio do empresário, afirmou que o filho do ex-secretário teria realizado aproximação com Almeida Júnior “a fim de discutir inquéritos em andamento relativos a Arthur e que, para tanto, teriam iniciado um empreendimento com a finalidade de escamotear o pagamento de propina”.

Restaurante em Ipanema

No depoimento, Rodrigues diz que “Rei Arthur” “emprestou” R$ 2 milhões para a abertura do restaurante L'entrecôte de Paris, em Ipanema. Ele afirmou que não acreditava que o “empréstimo” seria pago, “sendo, na verdade, a forma de viabilizar pagamento de vantagens indevidas para que os inquéritos não chegassem a conclusão contrária aos interesses de (Arthur) Soares”.

Após a delação, o Ministério Público verificou que o restaurante tinha em seu quadro societário, até 2019, Botelho e Renata Almeida, mulher de Almeida Júnior.

Na decisão que deferiu as buscas contra o delegado e sua mulher, Bretas menciona mensagens trocadas entre Almeida Júnior e “Rei Arthur” sobre a instalação do restaurante. O magistrado destaca uma conversa em que tratam da saída de Almeida Júnior do posto na Delegacia Fazendária e o “suposto auxílio que Arthur poderia lhe ofertar na busca por uma nova lotação”.

Bretas considerou que as questões apontadas pela Procuradoria demonstravam a “extrema importância” da autorização da busca e apreensão no endereço de Almeida Júnior e de sua mulher para colher documentos que apontem a relação entre o ex-delegado e Danilo Botelho.

"Isso porque há indícios do cometimento dos delitos de corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, sendo a medida de busca meio hábil para robustecer a investigação e, por conseguinte, indicar a autoria e materialidade dos delitos imputados", indicou o magistrado. A reportagem busca contato com a defesa do delegado Almeida Júnior, do empresário e a do ex-secretário nacional de Justiça.