Vírus contra-ataca e anula jogada de Bolsonaro


Fernando Molica
Por Fernando Molica, CNN  
13 de março de 2020 às 21:53 | Atualizado 14 de março de 2020 às 19:11
Coronavírus: Bolsonaro e Mandetta usam máscaras em live no Facebook

Coronavírus: Bolsonaro e Mandetta usam máscaras em live no Facebook

Foto: Reprodução/Facebook Jair Bolsonaro
 
O presidente Jair Bolsonaro bem que tentou aplicar no novo coronavírus a velha receita de negar a veracidade de notícias desagradáveis. Ele já culpou a Venezuela pelo derrame de óleo no Nordeste, criticou a metodologia do IBGE de cálculo do desemprego,  rechaçou informações oficiais sobre queimadas na Amazônia, escalou Leonardo DiCaprio no elenco de incendiários, classificou de fake news notícias comprovadas e checadas. 

Tratava, assim, de enfrentar fatos com versões – tirava a bola de sua área, a mandava pra longe e corria para o abraço de sua torcida virtual, ávida por consumir qualquer explicação que jogue o problema no colo dos inimigos de sempre, reais ou imaginários. A tática garantia ao presidente, no mínimo, o benefício da dúvida. Na ânsia de enquadrar a realidade, Bolsonaro desqualificou até mesmo as urnas eletrônicas que atestaram sua vitória – já tem na manga a justificativa para uma eventual derrota em 2022.
 
Diante de notícias do agravamento da crise econômica mundial, o presidente tentou matar o coronavírus no peito. Minimizou a disseminação da doença, falou em “fantasia” e arrematou com uma nova acusação à imprensa. Não contava com a resiliência do micro-organismo, que não dá a mínima para os arroubos bolsonaristas. Provocado, o vírus atuou como o VAR do futebol – e a jogada  presidencial acabou anulada. 
 

Dois dias depois da fala de Bolsonaro, a Organização Mundial da Saúde classificou a disseminação do vírus de pandemia; até este domingo havia sido confirmada a contaminação de cinco pessoas que viajaram com Bolsonaro para os Estados Unidos.
 
Para piorar, houve a suspeita de que autoridades norte-americanas, entre elas o presidente Donald Trump, poderiam ter sido contaminadas por integrantes da comitiva brasileira. 
 
Dessa vez, a bola chutada por Bolsonaro foi parar nos jardins da Casa Branca e quase quebra a vidraça da sede do governo dos Estados Unidos. Derrotado por um inimigo microscópico, o presidente acabou admitindo o tamanho do problema, e sequer pôde culpar os inimigos de sempre. Os vírus não têm ideologia.
 
Políticos, de um modo geral, detestam admitir erros. Bolsonaro não foge à regra – é um especialista em negar verdades mais absolutas, mesmo que tenha que brigar com a história, a matemática, a biologia, com as ciências em geral. Mas não custa ter esperança de que o episódio do coronavírus seja capaz de provocar uma reflexão na cabeça do presidente. Afinal, não é bom brigar com os fatos. 
 
A exemplo do vírus, o desemprego, o pibinho e o aumento do dólar e da pobreza não são fantasia ou fruto de uma conspiração de jornalistas. Ignorar tantos problemas não faz com que deixem de existir. É melhor encará-los do que achar que o jogo está ganho e, depois,  tomar uma bola entre as pernas e levar um gol de contra-ataque.