Bolsonaro discutirá fechar fronteira com a Venezuela para conter coronavírus


André Spigariol, Caio Junqueira e Renata Agostini Da CNN Brasil, em Brasília
15 de março de 2020 às 19:33 | Atualizado 15 de março de 2020 às 19:38
Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro

Foto: Adriano Machado/Reuters

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deve reunir nesta segunda-feira (16) com alguns de seus principais ministros para avaliar o fechamento da fronteira terrestre com a Venezuela em virtude da pandemia de coronavírus.

Há pressão para que Bolsonaro determine medidas na fronteira. O presidente foi procurado nos últimos dias por integrantes do governo que recomendam o bloqueio, incluindo o titular da Saúde, Luiz Mandetta (DEM). Na sexta-feira (13), o presidente encontrou-se com o chefe da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, no Palácio da Alvorada para debater a situação.

A avaliação de integrantes do governo é que o Brasil não consegue obter informações confiáveis sobre a disseminação da COVID-19 na Venezuela, já que o regime de Nicolás Maduro não tem interlocução com o governo Bolsonaro e vive uma crise de saúde pública.

Caracas recusou-se a participar, em fevereiro, de treinamento oferecido pelo Brasil com outros países da região sobre como diagnosticar o novo coronavírus e evitar sua disseminação.

O Ministério da Saúde alertou o presidente para outros episódios de doenças que chegaram ao país por meio da fronteira venezuelana. Foi o caso da Dengue Tipo 4, em 2010, e do surto de sarampo em Roraima, em 2018. Nas duas situações, o Brasil acionou o governo venezuelano e, no caso do sarampo, montou uma operação especial de vacinação na fronteira. Agora, porém, não há diálogo com Maduro, tampouco uma vacina disponível.

O plano de fechar a fronteira ganhou força dentro do governo brasileiro depois de o presidente Iván Duque, da Colômbia, ter anunciado o fechamento de suas passagens fronteiriças com a Venezuela na sexta-feira.

Segundo um ministro palaciano ouvido pela CNN Brasil, o ato seria também simbólico do ponto de vista de política internacional. Mas o governo brasileiro quer separar sua oposição a Nicolás Maduro de sua preocupação com o povo venezuelano.

Diferentemente de outros países do Mercosul, como Argentina, Paraguai e Uruguai, o Brasil não consegue pareceria com a Venezuela para ações coordenadas nas fronteiras e trocas de informações. Na divisa com o Paraguai, o Ministério da Saúde já promoveu ações de vacinação contra febre amarela e sarampo.

As imunizações são importantes para, além de proteger a população que chega ao país, facilitar o diagnóstico do novo coronavírus.

Nicolás Maduro sustenta que existe cooperação "eficaz e solidária" com o Brasil. “As negociações com o Brasil têm sido de boa cooperação entre os ministros da Defesa e Saúde daquele país e da Venezuela. Foram tomadas decisões conjuntas entre os países para atender à situação na fronteira”, declarou o mandatário na sexta-feira, quando declarou estado de alerta pela chegada da COVID-19 em seu país.

Ontem, Jorge Rodríguez, porta-voz do regime, anunciou mais oito casos importados da doença, que se somam aos dois primeiros infectados pela COVID-19 que foram divulgados na sexta-feira pelo Palácio de Miraflores. A comunidade internacional se preocupa com a fragilidade do sistema de saúde venezuelano em meio à pandemia. De acordo com a ONG Médicos pela Saúde, 78% dos hospitais da Venezuela têm abastecimento irregular de água e 63% apresentaram falhas de eletricidade no ano passado. Em dezembro, 28% das UTIs do país funcionavam de maneira intermitente ou estavam paradas. O país é o 176º entre 195 no Índice Global de Segurança Sanitária, elaborado por um painel de especialistas internacionais.

Na noite de sábado, o porta-voz afirmou que o presidente venezuelano irá anunciar neste domingo medidas de “quarentena coletiva por regiões”. Outras medidas de contenção do coronavirus já estão em vigor no país, como a obrigatoriedade do uso de máscaras e a desinfecção diária dos transportes coletivos. Maduro determinou também a suspensão por trinta dias de voos comerciais provenientes de Panamá, República Dominicana, Europa e Colômbia.

A embaixadora da Venezuela no Brasil, Maria Teresa Belandría, nomeada por Juan Guaidó, informou à CNN Brasil que não foi notificada ainda pelo Itamaraty sobre  o possível fechamento da fronteira. Na Colômbia, o embaixador Tomas Guanipa, também indicado por Guaidó, conseguiu negociar com o governo de Ivan Duque a abertura de uma “passagem de retorno”, permitindo a volta de venezuelanos em território colombiano para o seu país.