Fatura do novo coronavírus chega a Brasília e muda jogo político na capital


Renata Agostini
Por Renata Agostini, CNN  
15 de março de 2020 às 13:19 | Atualizado 15 de março de 2020 às 16:03
Esplanada dos Ministérios, em Brasília

Esplanada dos Ministérios, em Brasília (10.jan.2020)

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Demorou, mas a pandemia do coronavírus impôs-se como principal agenda de Brasília. Pelo ineditismo e pela gravidade, trata-se de um problema que ultrapassa a saúde pública. Afeta a política, a economia e a vida de todos os brasileiros. O novo coronavírus terá impacto nos temas políticos e econômicos que dominavam as atenções antes da crise global. A semana começará com governo e Congresso ainda se adaptando a essa dura realidade.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, escalou seus secretários para, ao longo do fim de semana, traçar novas medidas de socorro à economia. As ações divulgadas na quinta-feira de noite - antecipação da primeira parcela do 13º salário para aposentados, reforço no crédito, redução de tarifas de importação para medicamentos - amanheceram envelhecidas. Um novo pacote será anunciado nesta segunda-feira ou, no mais tardar, na terça-feira, de acordo com um auxiliar do ministro. Entre as opções estudadas, estão a autorização para novos saques do FGTS, a criação de linhas de crédito para empresas e um socorro emergencial a companhias aéreas. Gol, Latam e Azul viram compras de passagens caírem até 30% em poucos dias e já avisaram que, sem ajuda, demissões serão inevitáveis. 

A cúpula de Senado e Câmara passou o sábado em conversas - e trocas de mensagens - para decidir se seria necessário fechar o Congresso. Ao menos um parlamentar, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), testou positivo para o novo coronavírus. Avalia-se que manter os trabalhos do Congresso é fundamental - mas isso dependerá da proliferação ou não dos casos entre parlamentares e funcionários da Casa. 

Já chegou ao comando do Parlamento recado de economistas de que, no horizonte, há risco de a crise jogar a economia rumo à recessão caso nada seja feito. Mas há dúvida se haverá quórum para abrir as sessões nesta semana. É preciso convencer parlamentares a voarem de volta a Brasília.

Havia alertas, mas Brasília se recusava a acreditar na existência do mundo pós-coronavírus. Ainda em fevereiro, um integrante da equipe econômica expôs ao governo em reunião que preços de frete marítimos na Ásia caíam de forma abrupta, indicando que o problema era maior do que se antecipava. O Ministério da Saúde preparava-se há semanas para que o vírus passasse a ser transmitido no País e sinalizava ao Planalto e ao Congresso sobre a necessidade de reforçar o orçamento para combater a doença. O aviso me foi feito na manhã do dia 3 de março por uma fonte da pasta. Era questão de tempo. 

Indiferentes ao fato de que o mundo já era outro, parlamentares ocupavam seu tempo nas articulações sobre quem controlaria um quinhão do Orçamento. A prioridade na Economia seguia sendo o envio das sugestões de reforma nos tributos do País e o projeto que modifica as regras do funcionalismo. Havia apenas 15 semanas para mudar o Brasil, declarava o ministro Paulo Guedes, insistindo que era preciso pressionar o Congresso a aprovar as reformas antes das eleições municipais. 

O presidente Jair Bolsonaro preocupava-se com a adesão às manifestações programadas para este domingo e agarrava-se à percepção de que o surto se tratava muito mais de “fantasia" do que um problema real - discurso reverberado por muitos de seus auxiliares nos gabinetes de Brasília até poucos dias atrás. 

Integrantes do governo e da equipe econômica argumentam que não houve demora em reagir. Era preciso entender melhor o que ocorria no mundo e evitar causar pânico na população. Empresários, porém, já estavam sobressaltados diante do comportamento das Bolsas e do que acontecia na Europa e nos Estados Unidos. Pediam medidas urgentes. Aflito com o cenário de curto prazo e os ouvidos moucos das autoridades de Brasília, o presidente de uma das maiores companhias do País me relatou esta semana que o governo não poderia desperdiçar a vantagem de o Brasil estar "atrás no ciclo" - ou seja, é possível ver o que está acontecendo lá fora e correr para mitigar os efeitos aqui.

A pressão do empresariado e do mercado tende a crescer nos próximos dias. Para o Palácio do Planalto, que já cobrava de Guedes e seu time resultados mais rápidos, chegar às eleições de outubro com a economia cambaleante é cenário a evitar. Os parlamentares sabem disso e medem agora como conciliar seus interesses com efeitos ainda desconhecidos da pandemia. No jogo político, a partir de amanhã, o novo coronavírus chegou de vez à capital.