“O bode está na sala”


Thais Herédia
Por Thais Herédia, CNN  
25 de março de 2020 às 14:55

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu o que era improvável há poucos dias: colocar na ordem do dia o debate sobre o confinamento social como solução para limitar o contágio do coronavírus no país.  

“O discurso dele (Bolsonaro) é absolutamente desastroso, empobrece o debate. Mas não temos como escapar dessa discussão. Vamos ter que falar sobre isso. O bode está na sala”, disse um alto executivo brasileiro, muito respeitado em diferentes alas ideológicas do país – uma coisa não muito comum hoje em dia. 

Depois do pronunciamento em cadeia nacional nesta quarta-feira (24), Bolsonaro despertou a ira de opositores e até de aliados, como o governador Ronaldo Caiado, de Goiás, que rompeu com o presidente, sem não antes criticá-lo duramente. Do Congresso Nacional, dos acadêmicos, profissionais da saúde e médicos, a reprimenda também está sendo veemente. 

“Ninguém sabe dizer por quanto tempo e com qual intensidade é necessário parar. Entre os médicos, é missão deles salvar vidas, a qualquer custo. Eles estão vendo a morte acontecer agora. Entre os economistas, há algum bom senso de que a economia não pode parar completamente. Até sob risco de desabastecimento de alimentos, remédios. Eles veem a morte depois. O debate é válido”, ressalva o executivo.  

E não adianta só ‘falar’ sobre o bode instalado. Medidas precisam ser tomadas e, entre tantas já anunciadas, algumas agradam, outras preocupam. Não há consenso entre economistas e gestores do mercado financeiro sobre a qualidade da atuação do governo federal. 

“Para o Banco Central é mais fácil, ele está fazendo o que tinha que ser feito. Mas os bancos não estão querendo emprestar. Não adianta ter só o dinheiro na mão com toda essa liquidez que o BC proveu. Além do risco do contágio do vírus, nós estamos à beira de uma crise institucional. Se não houver perspectiva sobre como a gente vai estar depois disso tudo, não há investimento, não há crédito”, diz a fonte ouvida pela coluna. 

Na outra ponta está o governo federal e a política fiscal. Lá, a querela é mais acirrada, piorada pela articulação capenga com o Parlamento e uma coordenação falha entre as ideias geridas, a comunicação e a execução das propostas. Já é muito difícil gastar dinheiro público no Brasil com as coisas certas.

Historicamente somos muito bons em alocar mal os recursos. Nesta pandemia, a burocracia brasileira será testada em todo seu limite, o que já seria uma tarefa hercúlea. Imagine diante do desentendimento institucional entre os governos e os poderes? 

“Tudo indica que o governo vai ter que assumir um enorme risco, ou melhor, a sociedade inteira assumir o risco de financiar a economia diante de um nível de incerteza muito grande. Repetir outros anos em que os bancos públicos foram acionados, por exemplo, já que os privados não vão correr este risco. O que a gente sabe hoje é que não dá para, superficialmente, ficar todo mundo em casa. É muito grave. E não há uma receita fechada”, alerta o executivo que está em home office, respeitando a determinação do governo estadual.

O presidente Jair Bolsonaro faz pronunciamento sobre o novo coronavírus

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Foto: Divulgação - Isac Nóbrega/PR