Bolsonaro × Mandetta: cada um no seu quadrado

Com presidente nas ruas e ministro de volta às orientações de isolamento, presidente e ministro escolhem lados

Basília Rodrigues
Por Basília Rodrigues, CNN  
29 de março de 2020 às 22:34

O presidente beija, abraça, tira fotos com populares. O ministro orienta na porta do Ministério da Saúde até o vendedor de sorvete sobre como manter as mãos limpas. As duas principais cabeças no combate ao coronavírus, dentro do Poder Executivo, definitivamente não pensam igual quando o assunto é a intensidade das ações contra o novo vírus. E este fim de semana não deixou dúvidas.

"Ele pediu carta branca para defender o que acredita como médico", afirma um aliado de Mandetta. "Muitas vezes o presidente não é bem compreendido", prega um auxiliar da equipe de Bolsonaro no Planalto.

Para quem ainda tem dúvida, o argumento de Mandetta é a letalidade da doença, as milhares de pessoas mortas. Já Bolsonaro lançou mão de uma enquete que conecta o presidente ao homem simples da rua - que vive do oposto ao isolamento. Pergunta de quem já sabe a resposta: os comerciantes reagiram com pedidos de que querem sair às ruas e não ficar em casa.

Um homem na cola do isopor do churrasquinho, visitado por Bolsonaro, disse que "a morte está aí, mas seja o que Deus quiser. Se não morrer na doença, morre na fome". O outro homem, vendedor do churrasquinho, afirmou que o ideal seria evitar "aglomerações de muitas pessoas", sugerindo um esquema de organização próprio em que os consumidores de churrasquinho comprariam o alimento individualmente, cada um respeitando a sua vez, saindo em seguida pela lateral sem gerar muita interação um com o outro. Esse pensamento de quem tenta resolver uma pandemia mundial com regras de quem organiza uma fila de churrasquinho desafia evidências científicas e técnicas de um mal que mata, sem perguntar qual o viés político da vítima.

Na reunião deste fim de semana no Alvorada, o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, defendeu poder falar no que acredita como médico: fique em casa, lave as mãos, não é uma gripezinha. Já Bolsonaro, até que o tempo prove o contrário, continuará também defendendo o que acredita.