Negociações de cargos entre governo e partidos do 'centrão' avançam

As conversas em andamento envolvem o Banco do Nordeste, o novo ministério da Saúde e o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação)

Renata Agostini e Bárbara Baião, da CNN, em São Paulo
20 de abril de 2020 às 17:01
Palácio do Planalto
Foto: Cristiano Mascaro/Portal da Copa 2014

As negociações entre Palácio do Planalto e partidos do “centrão” avançaram. As conversas em andamento envolvem o Banco do Nordeste, o novo ministério da Saúde e o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). Os cargos estão na mesa para distribuição entre Progressistas, Republicanos e PL, segundo fontes envolvidas nas conversas relataram à CNN. A ideia é que, com a oferta de cargos, esses partidos possam se comprometer a votar com o governo em temas sensíveis no Congresso.

Presidentes e líderes desses partidos se reuniram na manhã desta segunda-feira (20) em Brasília para alinhar a contraproposta que seria feita ao governo esta semana. Eles esperam que o arranjo final seja decidido até sexta-feira (24).

Nas primeiras conversas, o grupo discutiu ter direito à presidência da Funasa e da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba). Mas, no caso da Funasa, o Planalto avisou que já havia acordo em andamento com o PSD.

Em relação à Codevasf, houve reação do Democratas ao avanço do centrão. O DEM tem hoje ascendência sobre o órgão e movimentou-se para não perder espaço. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, chegou a ser acionado, de acordo com líderes que participam das conversas.

Um encontro entre emissários do centrão e integrantes do Planalto estava previsto para a a tarde desta segunda. A ideia é ouvir o governo se o novo pacote será aprovado. Há desconfiança entre líderes do centrão, que não dizem não saber se o governo vai de fato entregar o que promete. 

O arranjo entre os PL, Progressistas e Republicanos prevê que a presidência vá para uma das siglas do bloco, mas cargos dos demais escalões sejam divididos entre as outras legendas aliadas. 

O PL, por exemplo, ficaria com a presidência do Banco do Nordeste e distribuiria entre Progressistas e Republicanos diretorias da instituição. O PL também teria prioridade para indicar a Secretaria de Vigilância em Saúde, ocupada na gestão de Luiz Henrique Mandetta por Wanderson de Oliveira. Já o Progressistas ficaria com a presidência do FNDE e outros postos em Brasília. 

As tratativas, lideradas por auxiliares de Jair Bolsonaro, sucederam rodada de conversas que o próprio presidente teve com líderes e presidentes desses três partidos no Planalto. Na ocasião, segundo relato de um dos presentes, o presidente chegou a dizer que gostaria de construir uma base parlamentar. Não fez, porém, um convite formal ou indicou cargos específicos durante o encontro, de acordo com essa mesma fonte.

O desenho final que possibilitaria a “adesão” do grupo ao governo não foi fechado. O Republicanos, que cobiçava a Codevasf, ainda aguarda resposta sobre novos pleitos. 

Antigo PRB, o Republicanos tem se aproximado da família Bolsonaro. O vereador Carlos Bolsonaro, do Rio de Janeiro, filiou-se à legenda. O senador Flávio Bolsonaro tem mantido contatos frequentes com o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, que também é vice-presidente da Câmara.

Há preocupação entre líderes do centrão do movimento ser lido pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, como tentativa de isolá-lo. Maia sofreu ataques recentes de Bolsonaro e é alvo constante dos filhos do presidente nas redes sociais. Há líderes que argumentam que o centrão pode atuar como um fator para “aproximar” Planalto e o presidente da Câmara.

O governo, porém, está interessado em obter aliados para segurar votações importantes na Câmara, onde Maia tem forte influência sobre a pauta e sobre o encaminhamento de decisões. Última manifestação de fragilidade de Bolsonaro no Congresso foi a apreciação do projeto de socorro aos Estados. Na ocasião, o governo pediu que a proposta fosse modificada, argumentando que ela representava uma “bomba fiscal”. Perdeu de forma expressiva na Câmara: 431 votos a 70.

O placar foi lido por líderes como um recado do centrão ao governo: seria preciso ceder para trazer o bloco para perto do Planalto. É neste contexto que as conversas entre PL, PR e Republicanos se dá neste momento. A estratégia do Planalto é conseguir influência “ao redor” de Maia, com partidos do centrão e, no Senado, com a ponte que vem sendo construída com Alcolumbre.