Procurador acusado de vender informações a Joesley é condenado a demissão do MPF

Angelo Goulart foi considerado culpado por repassar informações sigilosas ao empresário em troca de mesada; decisão precisa ser referendada na Justiça

Guilherme Venaglia, da CNN, em São Paulo
12 de maio de 2020 às 17:24 | Atualizado 12 de maio de 2020 às 17:24
O procurador Ângelo Goulart Villela, durante depoimento à CPMI da JBS
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) aprovou a pena de demissão para o procurador da República Ângelo Goulart Vilella, envolvido na delação premiada do empresário Joesley Batista, do grupo J&F.  

Goulart integrava a força-tarefa da Operação Greenfield, que investigava a empresa de Joesley, e é acusado de ter vendido informações privilegiadas da investigação ao empresário em troca de uma mesada de R$ 50 mil.

O caso foi deflagrado há três anos, em maio de 2017, quando Joesley Batista firmou acordo de delação premiada junto à Procuradoria-Geral da República (PGR). Além de Goulart, Joesley também confessou ter cooptado outro integrante do Ministério Público, Marcelo Miller, ex-procurador que teria começado a orientá-lo sobre os procedimentos para obter mais benefícios no processo antes de deixar o órgão. 

O início da investigação decorrente da delação de Joesley foi a primeira a envolver um procurador da República entre seus investigados desde o início das operações contra a corrupção derivadas da Operação Lava Jato, em 2014.

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A recomendação pela perda do cargo de Ângelo Goulart foi aprovada no CSMPF por nove votos a um. A decisão do conselho ainda precisa ser referendada por uma ação judicial. O procurador sempre negou as acusações e se disse vítima de perseguição pelo ex-procurador-geral Rodrigo Janot.

No julgamento, o procurador-geral Augusto Aras comparou o pagamento de uma mesada por um investigado a Goulart com a de servidores que repassam informações sigilosas para serem divulgadas pela imprensa. "Para o procurador-geral da República, Augusto Aras, o julgamento é um exemplo para que não sejam privilegiados aqueles que vazam e fornecem a quaisquer segmentos - imprensa ou interessados privados - informações que lesem o interesse público", diz nota da PGR. 

A crise iniciada com a delação de Joesley Batista resultou em duas denúncias contra o então presidente da República, Michel Temer (MDB) — ambas foram rejeitadas pela Câmara dos Deputados. O empresário acusou Temer de corrupção para ser beneficiado em contratos de exploração de gás natural. Em grampo entregue à polícia, também acusou o emedebista de ter concordado com a compra do sigilo do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB), que estaria ameaçando envolver os dois, o empresário e o então presidente, em sua própria delação premiada.