Na Saúde, Teich foi surpreendido por Bolsonaro e não desenvolveu suas ideias

Ministro deixou o governo após 27 dias e quase 12 mil novas mortes por Covid-19; relembre o período

Anna Satie, da CNN, em São Paulo
15 de maio de 2020 às 15:37 | Atualizado 15 de maio de 2020 às 15:44
O ministro da Saúde, Nelson Teich, em entrevista coletiva em Brasília
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters (22.abr.2020)

Nelson Teich pediu demissão do Ministério da Saúde nesta sexta-feira (15), 27 dias depois de assumir o cargo. Durante o curto espaço de tempo, teve dificuldade em implementar suas ideias, foi surpreendido por decisões do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e viu as mortes por Covid-19 quase se multiplicarem por oito.

O debate pela liberação da cloroquina, medicamento ainda sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e bandeira defendida pelo presidente, permeou todo o período.

O médico e empresário foi o sétimo ministro a deixar o governo em menos de um ano e meio de mandato de Bolsonaro, e o que permaneceu menos tempo no cargo.

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'Navegando às cegas'

Em seu discurso de posse, em 17 de abril, Teich deixou claro que sua prioridade seria coletar o máximo de dados possíveis sobre a doença, para implementar medidas de combate específicas para cada localidade. Até aquele momento, o Brasil havia confirmado 33.682 casos e 2.141 mortes por Covid-19.

No entanto, o ministro teve dificuldade em tirar suas diretrizes do papel. Sua primeira medida foi se reunir com parlamentares e governadores para se inteirar da situação. Em 29 de abril, em teleconferência com senadores, disse que o Brasil estava "navegando às cegas" no enfrentamento da pandemia.

Até o começo deste mês, apenas 11% dos 46 milhões de testes prometidos pela pasta foram distribuídos. 

O ex-ministro hesitou em defender publicamente o isolamento amplo -- cuja defesa fez seu antecessor,  Luiz Henrique Mandetta, entrar em rota de colisão com Bolsonaro.  "Sem conseguir mapear de forma ideal, tomamos medidas mais radicais do que precisaria", declarou sobre o assunto.

Em viagens oficiais a Manaus e Rio de Janeiro, Teich afirmou que estava ainda tentando entender melhor a situação nacional.

Na última semana, Teich vinha tentando apresentar a estratégia do ministério, que seria baseada em um questionário para avaliar a gravidade de cada local e então definir as recomendações. No entanto, não conseguiu chegar a um consenso com os secretários municipais e estaduais, e o anúncio foi postergado indeterminadamente.

Militarização do ministério

Durante o tempo de Teich na pasta, cargos estratégicos foram assumidos por militares. A começar pela atribuição de secretário-executivo, o segundo na hierarquia da pasta, ao general da ativa Eduardo Pazuello.

Ao menos dez outros militares já foram ou devem ser empregados na pasta. Em 6 de maio, Teich disse que a nomeação dos militares não significa interferência direta do governo, mas uma resposta à necessidade de execução de trabalho em curto espaço de tempo e de forma organizada.

"Sou o líder de um grupo que é composto por vários secretários. Meu papel é de liderança e de execução”, afirmou o ministro. Ele declarou que é preciso "evitar essa polarização, se é um governo de militar ou não". "Os militares têm competências que são muito importantes, o planejamento do trabalho em equipe, uma coisa organizada", disse.

A composição da equipe de Teich refletiu acordos do governo Bolsonaro para costurar apoio tanto com a ala militar como com partidos do chamado "centrão".  

Alinhamento com Planalto

Ministro da Saúde, Nelson Teich, ao lado do presidente Jair Bolsonaro
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters (17.abr.2020)

O descompasso de Teich com o presidente Jair Bolsonaro foi evidenciado nesta segunda-feira (11), quando foi publicado o decreto presidencial que incluiu salões de beleza e academias no rol de atividades essenciais — as que podem funcionar durante a pandemia.

No mesmo momento, o ministro da Saúde participava de entrevista coletiva e foi informado do acontecimento pela imprensa. Ele pareceu desconcertado com a decisão. "Isso aí saiu hoje?", perguntou. "Não passou [pelo Ministério da Saúde], não é atribuição nossa. Isso é atribuição do Presidente da República".

Ele passou a ser criticado por apoiadores do presidente nas redes sociais, que mostraram insatisfação na demora do ministro em liberar a administração da cloroquina a pacientes da Covid-19.

Uma publicação que Teich fez no Twitter no Dia das Mães também irritou os seguidores do presidente. Um monitoramento de redes feito pelo Planalto, de acordo com assessor palaciano, mostra que o médico dividiu opiniões ao lamentar o número de mortes pela Covid-19.

"Quero falar principalmente pra aquelas mães que hoje choram a perda de seus filhos e para os filhos que hoje não podem comemorar o dia com suas mães. Para esses, deixo aqui meus sentimentos e meu compromisso de fazer o meu melhor para que vençamos rápido essa terrível guerra", escreveu.

Cloroquina

Desde a posse, o ministro era cobrado para flexibilizar a recomendação da cloroquina — medicamento receitado para o tratamento de malária e lúpus que ainda não teve confirmação científica de eficácia contra o novo coronavírus. Pesquisadores brasileiros interromperam um estudo sobre a droga depois de 11 pacientes morrerem. Uma dose alta do medicamento pode levar a quadros severos de arritmia cardíaca.

Desde março, o Ministério da Saúde autoriza o uso do remédio para pacientes graves da Covid-19.

"A recomendação do Ministério da Saúde vai acontecer no dia em que tivermos evidência científica clara que o medicamento funciona", declarou Teich sobre o assunto.

Nesta quinta-feira (14), o presidente Jair Bolsonaro voltou a insistir na administração ampla, para pacientes com os primeiros sintomas da doença e que esperava que o ministro anunciasse uma mudança no protocolo ainda nesta sexta.

Nesta manhã, o chefe do Executivo disse que faria a alteração. Logo após a fala, Teich pediu demissão. "É o dia mais triste da minha vida. Não vou manchar a minha história por causa da cloroquina", declarou.

De acordo com o último boletim do Ministério da Saúde, desta quinta, o Brasil confirmou 202.918 diagnósticos e 13.993 mortes pela Covid-19.