Bolsonaro demorou a se reunir com governadores, dizem Haddad e Kassab

Em debate na CNN, os ex-prefeitos de São Paulo discordaram sobre um impeachment do presidente e discutiram sobre a aproximação do governo com o Centrão

Da CNN, em São Paulo
21 de maio de 2020 às 20:35 | Atualizado 21 de maio de 2020 às 20:53

Apesar de estarem de lados diferentes do espectro político, Fernando Haddad (PT) e Gilberto Kassab (PSD) disseram concordar, durante debate na CNN nesta quinta-feira (21), que o governo federal deve buscar união no combate ao novo coronavírus. Os ex-prefeitos de São Paulo avaliaram como positiva a reunião do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com os governadores.

"A reunião estava demorando para acontecer, para que haja o mínimo de entendimento e definição de políticas públicas. A partir de agora, ações em conjunto terão mais efetividade", avaliou Kassab.

Haddad foi mais incisivo quanto à demora. "O presidente levou 90 dias para convocar reunião. Finalmente, baixou o tom porque teve de ser humilde diante do caos que ele próprio está gerando".

Os dois disseram acreditar que o Congresso Nacional deu condições ao governo federal para que tomasse as medidas necessárias. Kassab disse que, após a reunião, espera que resultados comecem a aparecer. Já Haddad acredita que as providências serão uma "corrida contra o relógio".

"Temos que fazer nas próximas semanas o que deveríamos ter feito nos últimos três meses. Agora é tentar minimizar os efeitos", disse o petista.

Centrão

Questionados sobre a aproximação do presidente dos partidos do Centrão, ambos afirmaram que tentar formar coalizão é algo positivo.

"Na minha visão, o presidente está correto em procurar o Legislativo para construir essa maioria, para maior governabilidade. Que ele efetivamente tenha se conscientizado da importância do diálogo", disse Kassab.

Haddad concordou, mas declarou ver com desconfiança, por exemplo, a aproximação de políticos como o ex-deputado Roberto Jefferson.

"Minha preocupação não é o governo tentar montar coalizão, mas a de posições como a de Roberto Jefferson. Quando o presidente veicula o vídeo de uma pessoa desqualificada fazendo ameaças, ele dá guarida a esse discurso", disse.

Haddad também manifestou preocupação quanto à cessão do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) a alguém que, segundo ele, não tem atuação na área. "Isso é grave, é lotear o governo sem pensar na efetividade da ação governamental", classificou.

O ex-ministro da Educação também disse ver com preocupação a nomeação de generais no Ministério da Saúde. "As pessoas nomeadas pelo interino [o general Eduardo Pazuello] não têm familiaridade com o SUS, ele nomeia pessoas que não são afeitas à área da saúde".

Kassab concorda que a troca de ministros é ruim, mas disse dar voto de confiança ao general Pazuello até que possa conhecer melhor seu trabalho. Segundo Kassab, o enfrentamento à Covid-19 é uma guerra, e "guerra e general combinam".

Impeachment

Os dois debatedores discordaram quanto a pedidos de impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Kassab, que foi ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações no governo de Michel Temer (MDB) e das Cidades no segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), disse que não há nenhuma orientação no PSD quanto ao tema, mas que, pessoalmente, é contra.

"As instituições estão funcionando. Daqui a pouco, teremos o Congresso como órgão de polícia, com investigação como principal trabalho", opinou. "Não é momento para se discutir impeachment, vamos aguardar o desdobramento das investigações".

Já Haddad, que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 2018 e foi ministro da Educação nos governos Lula e Dilma, endossou a posição de seu partido.

"Tomamos muito cuidado para decidir se o presidente cometeu crime de responsabilidade e, hoje, não temos dúvida que sim, quando apoiou atos contra o STF, quando pressionou Moro para preservar seus parentes e futuros aliados", disse.

Mais cedo, o PT, junto de mais cinco partidos da oposição (PCdoB, PSOL, PCB, PSTU e PCO), protocolou na Câmara um pedido de impedimento do presidente que tem como base, entre outros temas, as acusações do ex-ministro Sergio Moro.

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Kassab e Haddad também opinaram sobre a divulgação do vídeo da reunião ministerial citada por Moro em depoimento.

O petista defendeu a publicação integral do material. "Cada cidadão tem que formar juízo a partir da íntegra do vídeo", disse.

Já Kassab disse que não sabe do conteúdo da gravação e que prefere aguardar a manifestação do relator do caso, o ministro do STF Celso de Mello. 

O ministro assistiu ao vídeo nesta semana e deve dar um parecer sobre a divulgação até esta sexta-feira (22).