'Interesses identitários não representam o interesse nacional', diz Ciro Gomes

Candidato à Presidência em 2018 criticou o que chama de "velha esquerda"

Da CNN, em São Paulo
24 de maio de 2020 às 23:42

Em entrevista exclusiva à CNN, o candidato à presidência em 2018 Ciro Gomes (PDT) criticou o que chamou de "esquerda antiga" e sua dificuldade em fazer frente a uma série de fatores que levaram à vitória de Jair Bolsonaro (sem partido) nas últimas eleições presidenciais. Para o ex-governador do Ceará e ex-ministro nos governos Itamar Franco e Lula, esta parcela, vinculada ao petismo, "trocou a concepção estratégica de país por um culto à personalidade". 

"Também está tomada de ódio pelo povo brasileiro. Quando se refugiam em agendas identitárias dão o queixo para bater. Não é que não sejam justas, as mulheres, negros, jovens e LGBTs são perseguidos e têm que se ser protegidos, mas a soma desses interesses identitários não representam o interesse nacional".

"Não tenhamos ilusões, 25% do povo brasileiro é de direita agressiva mesmo: não tem apreço a democracia, é escravocrata, não respeita o trabalho nem os humildes, é concentrador de renda, não tem sentimento nacional, tudo o que quer é enriquecer e comprar uma casa em Miami, isso vai continuar. (Outros) 25% é essa gente que se o Lula bater na mãe, xingar Jesus Cristo ou andar pelado na rua, vai relativizar porque é o Bolsonarismo boçal com sinal trocado", continua.

Ciro também faz sua leitura do cenário em que Bolsonaro foi eleito. "Foi a resposta tosca de um sentimento muito compreensivo. Em 2015, 2016, o Brasil mergulhou na pior crise econômica de sua história. O desemprego virou quase 14%, 100 milhões de brasileiros passaram a viver a vida ganhando R$ 413 por cabeça por mês. As empresas também sofreram esse baque. Em cima disso, em horário nobre, a novelização escandalosa da roubalheira. O que vinha de baixo era esse sentimento de vingança do povo, de ódio, rancor".

"O Bolsonaro, muito bem orientado, inclusive com assessoramento internacional e com muita grana vinda de fora, compreendeu o peso das redes sociais, das fake news feita em grupos de WhatsApp, manipulação de mentiras. A esquerda antiga brasileira não entendeu nada e deu-se a tempestade perfeita. Aquele que interpretou da forma mais tosca esse sentimento de revolta popular recebeu a maioria dos votos", explica.

Reunião ministerial

O pedetista também comentou o vídeo da reunião ministerial que veio à público na última sexta-feira (22). "Jair Bolsonaro claramente fez da maior parte da reunião uma espécie de pressão sistemática para que a estrutura da Polícia Federal fosse permeável. A função de polícia judiciária da PF ele quis invadir de forma absolutamente clara para, como ele mesmo diz, proteger seus amigos e familiares. Ali parece um delírio coletivo, olhar aquela fila de desatinos me chocou profundamente".

Por saber das intenções do presidente, Moro também não escaparia ileso, avalia Ciro. "Se o presidente tentava de forma espúria invadir as atribuições de polícia judiciária da polícia federal desde o ano passado e ele só vem reclamar agora, o Sergio Moro comenteu vários crimes. O mais grave, o mais flagrante é o da prevaricação".

"[Moro] é um politiqueiro dotado de uma ambição absolutamente desmedida. Um juiz que condena um político - e não está em discussão se o Lula é culpado ou não, pois estou cansado de saber que de inocente o Lula não tem nada - e, ato contínuo, vai ser ministro do político que recebeu benefício de ganhar a eleição, pois parte importante da opinião pública considera que que esse ganhou pois o político que ele mandou prender e tirou os direitos políticos não participou. Isso é uma lesão ética inconciliável. Sergio Moro é um ambicioso sem medidas que achou uma oportunidade dada pela mídia.