Bolsonaro age como deputado que vai para o enfrentamento, diz Rodrigo Maia

Noeli Menezes Da CNN, em Brasília
30 de maio de 2020 às 12:14 | Atualizado 30 de maio de 2020 às 14:20

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou neste sábado (30) que o presidente Jair Bolsonaro mantém a mesma postura que tinha quando era deputado federal, de ir para o enfrentamento, mas que precisa entender que agora ele é o chefe do Executivo, que comanda, e tem que conciliar.

“Hoje no poder Executivo nós temos um presidente que tem esse perfil [de confrontar] e sempre teve. Mas agora é diferente. Quando você é um deputado crítico e vai para o enfrentamento, é uma coisa. Quando você chega à Presidência da República, é diferente, o seu papel é conciliar. Você não é presidente só dos que o elegeram. Você é presidente de todos os brasileiros", disse Maia durante uma live.

"Como o presidente foi eleito por uma base mais ideológica, esse pessoal de extrema direita nas redes sociais, ele se sente mais comprometido com eles. E, quando vem um conflito, ele acaba atacando mais da linha do que ele fazia antes [quando era deputado]. Só que, como presidente do Brasil, cada vez que ele vai para o enfrentamento, ele desorganiza e gera insegurança. Quando você conversa pessoalmente com ele, a conversa é muito boa, o diálogo é muito positivo. Mas em entrevista ele acaba gerando essa insegurança”, completou o democrata.

O deputado cobrou propostas efetivas do governo para enfrentar a pandemia do novo coronavírus e para o pós-crise. “O governo precisa ter posição. A equipe econômica não pode mais ficar só criticando. O ministro da Economia [Paulo Guedes] cobra muito a responsabilidade do Parlamento, mas queremos saber o que ele pensa sobre reforma tributária, reforma administrativa.”

Para ele, o governo falhou ao não apresentar um plano abrangente, como fizeram os Estados Unidos, que olhasse para toda a economia, todos os setores, e que agora terá que saber separar quais setores será obrigado a socorrer para que “não pare tudo”. “Só temos três companhias aéreas. Se perdemos uma ou duas, como vai ficar a estrutura de negócios e de turismo no Brasil? O governo precisa organizar isso.”

Maia defendeu que o governo seja garantidor de 100% do crédito para alguns setores e que não concorda com a tese da equipe econômica de que ninguém vai pagar se o governo for fiador dos empréstimos. “Se a empresa sobreviver, vai pagar o empréstimo. Quem vai querer ficar com o nome sujo? Se ela falir, aí não tem jeito. Por isso o governo tem que garantir.”

Segundo o deputado, a prioridade, no entanto, é salvar vidas e reforçou a importância do isolamento social neste momento. “A economia não cai por causa do isolamento. Cai por causa do vírus. Eu uso o exemplo da Suécia e da Dinamarca. A economia dos dois países caiu igual, mas a Suécia teve mais mortes do que a Dinamarca porque não fez o isolamento social.”

Fake news

O presidente da Câmara voltou a defender um marco legal que responsabilize as plataformas digitais para combater a disseminação de notícias falsas na internet. Disse que está em contato com senadores para que o chamado PL das Fake News, que tem votação agendada para 2 de junho, “saia redondo do Senado” e seja aprovado sem mudanças pelos deputados.

“Todo mundo é a favor de redes sociais e de liberdade de expressão. Fake news não é liberdade de expressão. Fake news é um caminho usando robôs para viralizar o ódio, a desmoralização da imagem de terceiros e, principalmente, a desmoralização das instituições. A gente tem que fazer um debate com muito cuidado, ouvindo o Supremo Tribunal Federal, para que a gente não corra nenhum risco de passar por cima daquilo que é vital para a nossa democracia, que é a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa”, afirmou. 

Um dos principais alvos de grupos de direita que propagam informações falsas, Maia deu um exemplo de uma fake news contra ele. “O governo trabalhou para derrubar a medida provisória que mantinha o 13º para o Bolsa Família porque o Congresso colocou o 13º para o BPC [Benefício de Prestação Continuada]. As redes próximas ao presidente disseram que eu fui culpado porque não aprovou. Então, essa questão das fake news tenta criar uma narrativa falsa para sociedade em que tenta desqualificar uma pessoa que não fez aquilo. Isso é muito grave, porque vai gerando uma raiva que vira ódio. Precisamos tratar de qualquer jeito, com cuidado. E as nossas plataformas precisam ter responsabilidade.”