Falta de orientação levou país a 100 mil mortos em pandemia, diz Cármen Lúcia

Ministra do Supremo também apontou "falta de escrúpulo econômico"

Gabriela Coelho Da CNN, em Brasília
11 de agosto de 2020 às 19:18

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou, em live nesta terça-feira (11), que a falta de orientação segura e apoiada na ciência levou ao país a um "fim de semana de luto", em referência à marca de 100 mil mortes causadas pelo novo coronavírus atingida no último sábado. 

“Cem mil mortos não precisava ter acontecido, em que pese ser fato que este coronavírus é realmente uma doença grave e que acometeria muita gente. Mas foi uma atuação estatal, aliada a uma atuação em parte de uma sociedade perplexa, aturdida diante de tantos desmandos, de tanta falta de orientação segura seguindo-se a ciência e a medicina de evidências que nos levou a um fim de semana de luto. Portanto, luto que impõe luta permanente pela democracia”, disse a ministra. 

"Essa pandemia está patenteando exatamente isso, tornando escancarado como a irresponsabilidade política junto com a falta de escrúpulo econômico, principalmente no espaço particular empresarial, junto com cidadãos que não pensam nos outros e não se comprometem com os outros, levaram a um fim de semana como esse que acabamos de ter, de uma sociedade enlutada por todos que tenham alguma sensibilidade", afirmou.

Mais cedo, o ministro Gilmar Mendes, do STF, atribuiu o crescimento do número de mortes por covid-19 à falta de coordenação das políticas públicas voltadas ao enfrentamento da doença. Para ele, desde o início da pandemia o país assiste um 'amontoado de desencontros'.

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"Poderíamos ter tido maior êxito. Certamente se tivesse havido maior coordenação, teríamos muito menos mortes do que tivemos, aí já com esse número macabro de 100 mil mortes", disse o ministro. Ele lembrou ainda o impacto da realidade sanitária e da desigualdade social do País no agravamento da crise.

Esta não é a primeira vez que o ministro critica a gestão da crise provocada pelo novo coronavírus. Mês passado, ele disse que o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) cria 'ônus' às Forças Armadas ao tentar transferir a responsabilidade sobre a pandemia e que o Exército está se associando a um genocídio - em referência aos militares alocados no Ministério da Saúde. A pasta é comandada interinamente pelo general Eduardo Pazuello há quase três meses e conta com dezenas de oficiais das Forças Armadas nomeados.

Democracia

Cármen Lúcia foi acompanhada por Luis Roberto Barroso na transmissão, em que discutiram a democracia no país. “Estamos permanente a nos preocupar e buscar formas de defesa da democracia. Além disso, temos milícias digitais que que matam todas as formas de pensamento que não sejam coerentes om certos grupos. Temos desafios novos”, disse a ministra.

Barroso disse também que há três fenômenos contra a democracia atualmente e que as instituições precisam oferecer resistência. Segundo ele, entretanto, isso tem sido feito no Brasil. “O primeiro [fenômeno] é um populismo é a tentativa de desprestigiar as instituições com promessas com preços elevadíssimos. As redes sociais permitem essa comunicação. O segundo é um conservadorismo radical e intolerante. A democracia tem espaço para todos, ela não tem lugar para a intolerância e inaceitação do outro, do diferente. Não há problema em ser conversador, o problema é ser violento. E o terceiro é o pendor autoritário que tem caracterizado intolerância no mundo.”

(com Estadão Conteúdo)