Fecomércio RJ nunca me disse que usava dinheiro público, diz vice da OAB

Ana Basílio descarta tese de motivações políticas por parte dos investigadores, mas critica operação e afirma que serviços advocatícios foram legítimos

Da CNN, em São Paulo
09 de setembro de 2020 às 21:27

Uma das investigadas pela Operação E$quema S, deflagrada nesta quarta-feira (9), a advogada Ana Tereza Basílio disse à CNN que não tinha conhecimento de que a Fecomércio RJ utilizava dinheiro público para o pagamento de honorários advocatícios.

“O cliente Fecomércio RJ jamais deu a entender que usaria recursos que não fossem deles, ao menos para meu escritório. Soubemos da operação posteriormente pela imprensa. O fato foi ocultado pela Fecomércio RJ para mim”, afirma Ana Tereza.

A investigação deflagrada apura um esquema de corrupção de verbas da Fecomércio RJ e das seções fluminenses do Serviço Social do Comércio (Sesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

A advogada foi questionada sobre a informação, contida nas investigações, de que Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomércio RJ e delator que deu origem à operação, utilizou recursos do Sesc e do Senac para financiar custos da entidade com advogados.

Ana Tereza Basílio é vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro e advogada do governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), que não foi denunciado na operação.

A vice-presidente da OAB-RJ rejeitou a hipótese que foi levantada pelo advogado Cristiano Zanin, defensor do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e também investigado pela apuração. Para Zanin, a operação possui motivações políticas.

"Eu não acredito em motivações políticas, quero crer que não", afirmou a defensora, durante a entrevista à CNN.

Indicada pelos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff (PT) para compor o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) no começo da década, ela negou alguma relação entre uma proximidade com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB) e a sua contratação pela Fecomércio.

Segundo a hoje vice-presidente da OAB-RJ, a informação que Orlando Diniz dava aos advogados era a de que Cabral buscava influenciar as decisões contra a entidade, por ter interesses alinhados aos da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

Ana Tereza, no entanto, criticou a condução da operação. Ela afirma que os valores pagos ao seu escritório correspondem a serviços que prestou à Fecomércio RJ, no lítigio entre a federação e a CNC.

"Se tivesse antes da operação e da denúncia ouvido os advogados, eu tenho certeza que a operação não teria nem sido realizada, porque todo o trabalho, o longo trabalho realizado está documentado e todos os honorários pagos estão respaldados em contratos celebrados por empresa privada", argumentou.

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O que dizem os citados na Operação E$quema S

Questionada a respeito de um dos pontos citados na investigação, a subcontratação entre vários escritórios de advocacia, Ana Tereza Basílio argumenta ser esse um procedimento "absolutamente corriqueiro, trivial e até recomendável".

"Com relação ao meu contrato para esses quatro anos de atuação, inicialmente eu fui contratada para coordenar a defesa e coordenar um time de advogados, como é comum em causas de grande porte e grandes litígios", argumentou.

Relação com Wassef e Zanin

A investigação da PF aponta os advogados Cristiano Zanin e Frederick Wassef -- ex-advogado do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) -- como alguns dos principais articuladores do esquema de desvio de dinheiro.

Enquanto Ana Tereza negou ter tido qualquer contato com Wassef, disse que foi contratada pela Fecomércio RJ por indicação de Zanin.

“O Zanin é um advogado conhecido, respeitado e competente. Foi ele que, depois de algumas derrotas judiciais da Fecomércio RJ no caso contra a Confederação Nacional do Comércio, me convidou para o caso sob o argumento que o cliente não estava satisfeito com os resultados obtidos até então.”

(Edição: Guilherme Venaglia).