PF orientou centralizar dados da eleição no TSE para 'reduzir vulnerabilidades'

Este foi o primeiro ano em que resultados foram totalizados em Brasília; processo causou atraso na apuração

Rachel Vargas, da CNN em Brasília
17 de novembro de 2020 às 18:51 | Atualizado 17 de novembro de 2020 às 19:52

 

Centralizar os dados das urnas de todo o país no servidor do Tribunal Superior Eleitoral ajuda a diminuir a vulnerabilidade do sistema. Foi assim que entendeu a Polícia Federal após uma perícia realizada no sistema eleitoral em 2018 — ano das eleições gerais.

No relatório, a Polícia Federal apontou que a centralização dos dados das eleições no TSE melhora “consideravelmente a segurança operacional e tem potencial de continuar com desempenho satisfatório”. 

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Trechos do relatório a que a CNN teve acesso apontam que “mesmo com o uso de melhores técnicas de codificação das rotinas armazenadas na base de dados, isso é mais um ponto de vulnerabilidade que pode ser explorada ainda mais em um ambiente com base de dados distribuídas em cada TRE”: 

Antes, a totalização dos votos era feita por cada Tribunal Regional Eleitoral que enviava o resultado consolidado ao TSE. Com a centralização, os TREs passaram a enviar os dados brutos.

A medida foi adotada pelo TSE ainda na gestão da ministra Rosa Weber, mas só foi experimentada no último domingo, primeiro turno das eleições municipais.

Atraso na apuração

A centralização, no entanto, foi o que originou o atraso na apuração do pleito. O resultado em todos as cidades só foi oficializado pelo TSE as 23h55 do domingo —um atraso de quase 3 horas quando comparado as últimas eleições. 

É que de acordo com o TSE, o equipamento adquirido, em março, pelo Tribunal para fazer a totalização dos votos chegou somente em agosto, por causa da pandemia. Com isso, não foi possível realizar todos os testes necessários para simular um ambiente exato de eleições. Isso significa que o sistema de inteligência artificial do equipamento não estava preparado para processar a quantidade e o volume recebidos. 

“O sistema de inteligência artificial do equipamento demorou a ser capaz de efetivamente aprender essa operação. E a demora que nós tivemos, um pouco mais de duras horas, foi o tempo que os técnicos levaram para diagnosticar o problema e remediá-lo"

Após dizer que não tinha “simpatia” pela mudança na forma centralizada de totalizar os votos, o ministro admitiu que se tivesse a mesma orientação da Polícia tomaria a mesma decisão.

O TSE informou que o custo do supercomputador aos cofres públicos é de R$ 6,5 milhões ao ano. Já retornar ao formato anterior, quando os TREs totalizavam os votos, custaria R$31 milhões para adquirir as máquinas e R$ 11 milhões por ano para que o TSE recepcione e divulgue os dados. 

Investigação

A Polícia Federal começou a investigar os ataques ao sistema da justiça eleitoral nesta terça. O ministro Luís Roberto Barroso pediu abertura de inquérito para apurar os ataques massivos realizados no domingo de eleição (15).

No pedido, Barroso cita instabilidades no e-Título, tentativas de ataque, e divulgação na internet de vazamento de dados de servidores do TSE, supostamente obtidos pela violação do banco de dados da Corte.

Ele destacou que, embora os incidentes não tenham relação com os sistemas da urna eletrônica e nem prejudicado a apuração, podem ter eventualmente afetado a estabilidade do aplicativo e-Titulo.

O ministro afirmou que milícias digitais com motivação política aproveitaram a situação para tentar descreditar o sistema eleitoral. A polícia identificou que os ataques foram feitos dos Estados Unidos, Brasil e Nova Zelândia. De acordo com o TSE, foram feitas 436 mil conexões por segundo.

A ação, chamada de ataque de negação de serviços (DDoS), tem como objetivo derrubar o sistema. A tentativa foi neutralizada pela equipe do tribunal e pelas operadoras de telefonia.

(*Com informações de Vianey Bentes, da CNN em Brasília)