Brasil diz que Paraguai será prioridade número 1 na cooperação de vacinas

O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, é alvo de protestos por má gestão da pandemia. Partidos de oposição chegaram articular um pedido de impeachment

Mathias Brotero, da CNN, em São Paulo
18 de março de 2021 às 00:45
Ministro Ernesto Araújo e ministro do Paraguai
Foto: Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, colocou o Paraguai no topo da lista dos países que devem cooperar internacionalmente no movimento de vacinas.  

O chanceler disse que o Paraguai será a prioridade número um do Brasil. A afirmação foi feita nessa quarta-feira (17), no Palácio do Itamaraty, após o primeiro encontro presencial entre Araújo e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Euclides Acevedo.

Depois da reunião, os ministros se encontraram com o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto.

Em seu discurso no Ministério das Relações Exteriores, o chanceler paraguaio agradeceu pela solidariedade do Brasil na pandemia e disse que a situação do Paraguai, que recebeu poucas vacinas até o momento, é conhecida. No ano passado, o Brasil doou 50 mil testes “RT-PCR” para detecção da Covid-19.

O ministro disse que o Brasil é uma potência econômica, científica e tecnológica, e que os países pretendem trabalhar em conjunto para que todos tenham acesso às vacinas.

“Uma maneira de alcançar a todos é ter acesso à informação. Nesse sentido, vamos cooperar dentro das nossas possibilidades em que isso seja possível”, disse.

O Paraguai, que adotou medidas restritivas no início da pandemia e chegou a ser um dos países com menor incidência de Covid-19 na América do Sul, vive o pior momento da crise sanitária.

O país já registrou 181.414 casos e 3.517 mortes pela doença, de acordo com o Ministério da Saúde paraguaio. Os leitos de UTI chegaram a 97% de ocupação.

Além disso, o governo tem tido dificuldade em obter vacinas contra o novo coronavírus.No último domingo (14), o governo paraguaio assinou um decreto presidencial, determinando novas restrições, para evitar o colapso total do sistema de saúde.

As atividades de trabalho foram reduzidas ao mínimo necessário, tanto para o setor público, quanto para o particular. A partir de quinta-feira (18), estará proibida a circulação entre oito horas da noite e cinco da manhã, em 24 cidades inclusive a capital Assunção.

As aulas presenciais serão suspensas nas regiões mais graves. O aumento no número de casos e mortes tem formado uma crise política no país. No início do mês, o então ministro da Saúde, Julio Mazzoleni, renunciou, após uma série de denúncias de familiares de pacientes em UTIs, por Covid-19, que afirmaram que o Estado não fornecia remédios.

O presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, é alvo de protestos por má gestão da pandemia. Partidos de oposição chegaram articular um pedido de impeachment.

Itaipu

Essa não é a primeira ameaça de impeachment ao presidente paraguaio. Em 2019, Mario Abdo Benítez foi acusado de traição pela oposição, por ter supostamente omitindo informações relacionadas a um acordo de compra de energia da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que desfavoreceria o Paraguai.

Após a pressão, o ato foi revogado. Em 2023, a dívida da usina estará totalmente quitada e o anexo C do Tratado de Itaipu, a respeito das bases financeiras e da prestação dos serviços de eletricidade, passará por uma revisão.

O documento estabelece que cada país terá direito a metade da energia gerada pela usina, mas deve vender ao outro parceiro, a parte que não for utilizada. A análise do anexo foi tema das conversas entre Ernesto Araújo e Euclides Acevedo.O chanceler brasileiro disse que o diálogo deve ser iniciado “no mais breve prazo”, mas não especificou uma data.

“Estamos prontos para começar as discussões (...) tão logo as circunstâncias da pandemia minimamente o permitam”, disse.

Para o ministro paraguaio, a edição do texto não pode ser somente uma discussão jurídica e administrativa, mas um recurso natural que respeite o meio ambiente, a cultura e, sobretudo, os direitos igualitários dos países.

“Após a pandemia, vamos ir iniciando nossas conversações para a revisão, a renegociação e a utilização de Itaipu para o desenvolvimento de outras obras na região, obras hidrelétricas, abordar a hidrovia, o corredor bioceânico, para que a integração não seja uma formulação teórica, mas uma realidade prática, economicamente previsível, politicamente estupenda e diplomaticamente fascinante”, disse.

Infraestrutura

O corredor bioceânico, a que o chanceler se refere, é um projeto que pretende ligar, por terra, os oceanos Atlântico e Pacífico, passando pelo Brasil, Paraguai, Argentina e Chile.

De acordo com o ministro brasileiro, a construção e pavimentação do trecho paraguaio vem evoluindo.

O progresso da obra está ligado a construção de uma ponte sobre o Rio Paraguai, que segue em processo de licitação.