Anvisa pede informações sobre Prevent Senior a vigilâncias sanitárias de SP

Além da CPI, a operadora de saúde é investigada pelo Ministério Público de São Paulo, pela Polícia Civil do estado, pela ANS e pelo Cremesp

Sinara Peixotoda CNN

Em São Paulo

Ouvir notícia

A Anvisa enviou nesta quarta-feira (29) ofícios às vigilâncias sanitárias do município e do estado de São Paulo, solicitando informações sobre a atuação da operadora de saúde Prevent Senior.

Nos documentos, a Agência pede que, em 48 horas, a Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa) da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e o Centro de Vigilância Sanitária (CVS) do estado informem as medidas que estão sendo tomadas “para cumprimento da legislação sanitária vigente”.

Denúncias

Um dossiê entregue à CPI da Pandemia acusa a Prevent Senior de fazer testes com cloroquina no tratamento da Covid-19. A operadora de saúde teria ocultado informações de pacientes.

Médicos que trabalham ou trabalharam na empresa reuniram uma série de irregularidades e encaminharam ao senador Humberto Costa (PT-PE), integrante da CPI.

Entre as denúncias está a prescrição indiscriminada de cloroquina, azitromicina e ivermectina, o chamado “kit covid”, para pacientes associados, até mesmo para quem não tinha sintomas da doença. Há também a elaboração de um estudo que supostamente demonstra a eficácia dos medicamentos.

A estratégia, de acordo com a denúncia, seria para o governo federal influenciar a população ao consumo dos medicamentos — cloroquina, azitromicina e ivermectina — para a cura ou prevenção da doença. Os assessores deveriam se mostrar favoráveis aos novos tratamentos. Em mensagem anexada ao dossiê, foi requerido aos médicos que não informassem aos pacientes e aos familiares sobre o programa.

De acordo com o relato dos médicos, a empresa Vitamedic lucrava com a venda de medicamentos, e a Prevent Senior com novas adesões ao plano de saúde.

Segundo o documento que está sendo investigado pela CPI da Pandemia, havia um acordo entre a operadora e assessores do governo federal para parar os ataques do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), à empresa por causa de mortes em um hospital da operadora.

A pesquisa, que chegou a receber o apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) numa rede social, foi usada pelos defensores da cloroquina para justificar a prescrição do medicamento. Os médicos relatam que, em doze dias de pesquisa, aproximadamente 700 pacientes passaram pelo estudo.

À medida que a situação se agravava em consequência do ciclo da doença, mais pacientes morriam. Enquanto, segundo o relato, eram divulgadas informações falsas sobre o sucesso do tratamento. Apesar disso, os médicos continuavam sendo aconselhados a indicar o uso do kit.

Evidências científicas comprovam que a cloroquina não é eficaz para a prevenção e o tratamento da Covid-19.

Investigações

Além da CPI, a operadora de saúde é investigada pelo Ministério Público de São Paulo, pela Polícia Civil do estado, pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

Oito membros do Ministério Público investigam a conduta dos médicos da Prevent Senior. Eles, inclusive, já receberam os documentos enviados pela CPI da Pandemia no Senado.

A investigação na Polícia Civil, que apura possível falsidade ideológica na emissão das certidões de óbito de Regina Hang, mãe do empresário Luciano Hang, e do médico Anthony Wong, defensor do tratamento precoce, pretende ouvir o dono das lojas Havan e a esposa do médico, Carla Von Gabriel Wong.

Na época das mortes, no começo deste ano, o hospital Sancta Maggiore, da rede Prevent Senior, não informou as causas dos óbitos. Nos laudos, não é citada a Covid-19. Porém, os prontuários indicam que as mortes foram causadas por complicações da doença.

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo oficiou o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), o Conselho Regional de Farmácia (CRF) e o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) para a adoção de medidas cabíveis em relação a hospitais da rede Prevent Senior, considerando as atribuições legais de fiscalização do exercício de cada profissão.

Três ofícios foram enviados aos órgãos em decorrência das denúncias recebidas pela CPI da Pandemia, e tratam diretamente da “alteração” de diagnósticos nos prontuários de pacientes, da omissão do CID da doença nas declarações de óbitos e também da prescrição de medicamentos sem eficácia cientificamente comprovada para tratamento da doença, como a cloroquina.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) autuou a Prevent Senior por não informar aos pacientes que eles estavam recebendo os medicamentos do “kit Covid”.

O órgão regulador já tem evidências suficientes que isso pode ter ocorrido porque está ouvindo ativamente os pacientes tratados pela empresa.

Os documentos, assinados pelo secretário Jean Gorinchteyn, funcionam como um pedido formal aos órgãos, para que tomem as medidas cabíveis, pois nenhum deles pode sofrer nenhuma sanção por parte da Secretaria Estadual de Saúde.

Leia a nota da assessoria da Prevent Senior:

“A Prevent Senior nega e repudia as acusações mentirosas levadas anonimamente à CPI da Covid e à imprensa.

O mesmo teor dessas imputações havia sido trazido à empresa, antes da CPI, pela advogada Bruna Mendes dos Santos Morato, que tentou fechar um acordo para não levar o caso à comissão.

O depoimento da advogada à CPI hoje confirma que se tratam de acusações infundadas, que têm como base mensagens truncadas ou editadas vazadas à imprensa e serão desmontadas ao longo das investigações. A Prevent Senior estranha o fato de a advogada manter no anonimato os supostos médicos autores da acusação. A empresa ainda não teve acesso aos autos da CPI para fazer sua ampla defesa.

Ao longo da epidemia, a Prevent aplicou cerca de 500 mil testes em que constatou o contágio de 56 mil pacientes. Desse número, 7% redundaram em mortes. Todos os casos foram rigorosamente notificados. A Prevent Senior sempre respeitou a autonomia dos médicos, nunca demitindo profissionais por causa de suas convicções técnicas.

Esse índice de 93% de vidas salvas, na faixa etária média dos 68 anos de idade, é, comprovadamente, superior ao que se registra nos hospitais das redes pública e privada. Não por acaso, o índice de confiabilidade e aprovação da clientela da Prevent Senior é superior a 90%.”

(Com Bruna Macedo, Tainá Falcão, Matheus Meirelles, Raquel Landim, da CNN, em São Paulo)

Mais Recentes da CNN