Tensão eleitoral selou saída de Azevedo do TSE

Ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo havia sido escolhido pela cúpula do tribunal justamente para fazer uma interface entre a Corte e as Forças Armadas

Caio Junqueira

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A retomada do tensionamento entre o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) foi gerou uma pressão familiar que acabou por ser um componente essencial para que o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo desistisse de assumir o cargo de secretário-geral da Corte, segundo fontes das Forças Armadas e do Judiciário.

Azevedo, considerado em Brasília como o mais político dentre os militares, foi escolhido pela cúpula do TSE justamente para fazer uma interface entre a Corte e as Forças Armadas, que têm feitos questionamentos formais sobre o processo eleitoral brasileiro. Nesta quarta-feira (16) foi anunciada sua desistência de assumir o cargo por questões de saúde.

Ele, de fato, tem um problema cardíaco sério. Realizou nos últimos dias diversos exames que constataram falta de oxigênio no coração provocada por excesso de gordura em suas artérias. Há possibilidade, inclusive, de que coloque um stent.

Mas a escalada de tensionamento nas últimas semanas entre Bolsonaro e ministros do TSE e a previsão de que elas aumentem conforme a eleição se aproxima, fez com que se ampliasse uma pressão familiar para que ele não assumisse o cargo.

A interlocutores, Azevedo disse nos últimos dias que o trabalho no TSE será pesado, que as eleições estão próximas (sete meses) e que também não haveria muita margem de manobra na corte tendo em vista que a organização das eleições já está bem avançada.

Por outro lado, nas avaliações que fez a aliados, disse as urnas eletrônicas são um dado da realidade do processo eleitoral brasileiro: existem há 27 anos sem problemas. E que, mais do que isso, o próprio Congresso Nacional, a quem caberia alterar o sistema, optou no ano passado por mantê-lo.

Nos 15 dias que circulou pelo TSE, saiu bem impressionado com a Corte: disse que é um poder com capilaridade por todo o país e 22 mil funcionários, sendo 95% concursados. Em suma: confia no sistema eleitoral.

Trata-se de uma visão distinta da de Braga Netto, seu sucessor no Ministério da Defesa, que tem liderado os questionamentos ao processo eleitoral junto ao Tribunal Superior Eleitoral. Revelada pela CNN em dezembro, o envio da lista de perguntas elaborada pela área de segurança cibernética do Exército acabou por reativar no presidente Jair Bolsonaro suas críticas às urnas. Nesta quarta-feira, o TSE acabou divulgando toda a lista dos questionamentos, o que incomodou as Forças Armadas, que as enviaram sob sigilo.

A avaliação nas Forças Armadas, mesmo antes da divulgação, é de que quem as dragou para o processo eleitoral foi o próprio TSE, que convidou para participar do Comitê de Transparência Eleitoral. Por outro lado, oficiais da ativa das forças afirmaram à CNN que, a partir do momento em que Bolsonaro aceita participar da eleição, ele deve se submeter às regras do jogo. E que a tradição das forças é de respeito a instituição eleitoral.

De qualquer modo, as respostas do TSE às perguntas das Forças Armadas são consideradas apenas uma preliminar do trabalho de questionamentos que serão feitos à Justiça Eleitoral. Ou seja, é apenas o início de um trabalho. A tendência é de que haja mais questionamentos a partir das respostas recebidas. Há possibilidade, inclusive, de que seja requisitada para análise uma urna eletrônica.

A decisão, porém, é política e fica a cargo de Braga Netto, que está em viagem oficial com Bolsonaro na Rússia. Procurado, Azevedo disse que saiu por questões de saúde e familiares e não políticas.

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