Cientistas investigam retorno do coronavírus em pacientes considerados curados


14 de março de 2020 às 16:07
Paciente contaminado pelo novo coronavírus (COVID-19), em Wuhan, na China

Paciente contaminado pelo novo coronavírus (COVID-19) sob tratamento em hospital na cidade chinesa de Wuhan

Crédito: China Daily via Reuters

A comunidade científica investiga um número crescente de pacientes com o novo coronavírus (COVID-19) na China e em outros lugares que apresentam resultados positivos para o vírus após terem sido considerados curados. Em alguns casos, os novos diagnósticos de contaminação acontecem semanas após a alta hospitalar. 

Na quarta-feira (26), o governo da província japonesa de Osaka informou que uma mulher que trabalha como guia de ônibus de turismo havia testado positivo para o coronavírus pela segunda vez. O fato ocorreu após relatos na China de que pacientes que receberam alta em todo o país estavam testando positivo após deixarem o hospital.

Um representante da Comissão Nacional de Saúde da China afirmou nesta sexta-feira que esses pacientes não foram considerados infecciosos.

Especialistas dizem que há várias maneiras pelas quais os pacientes que recebem alta podem adoecer novamente com o vírus. Os pacientes convalescentes podem não acumular anticorpos suficientes para desenvolver imunidade ao SARS-CoV-2 — o vírus que provoca a doença COVID-19 — e estão sendo infectados novamente. O vírus também pode ser "bifásico", o que significa que permanece adormecido antes de provocar novos sintomas.

Mas alguns dos primeiros casos de "reinfecção" na China foram atribuídos a uma discrepância em diferentes exames.

Em 21 de fevereiro, um paciente que recebeu alta na cidade de Chengdu, no sudoeste da China, foi readmitido 10 dias após a alta quando um teste de acompanhamento deu positivo.

Lei Xuezhong, vice-diretor do centro de doenças infecciosas do West China Hospital, disse ao jornal People's Daily que os hospitais estavam realizando exames com amostras de nariz e garganta ao decidir se os pacientes deveriam receber alta, mas novos testes estavam apontando o vírus no trato respiratório inferior.

Paul Hunter, professor de medicina da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, que acompanha de perto o surto, declarou que, embora a paciente em Osaka possa ter tido uma recaída, também é possível que o vírus ainda estivesse sendo liberado desde a infecção inicial e ela não foi testada corretamente antes de receber alta.

A mulher teve um resultado positivo no final de janeiro e recebeu alta do hospital em 1º de fevereiro, levando alguns especialistas a especularem que era bifásico, como o antraz.

Um estudo do Journal of American Medical Association de quatro profissionais da área médica infectados tratados em Wuhan, o epicentro da epidemia, informou que é provável que alguns pacientes recuperados continuem sendo portadores mesmo após cumprir os critérios de alta.

Na China, por exemplo, os pacientes precisam ter resultados negativos, não apresentar sintomas e não apresentar anormalidades nos raios X antes de receberem alta.

Allen Cheng, professor de doenças infecciosas na Universidade Monash, em Melbourne, disse que não está claro se os pacientes foram reinfectados ou se permaneceram "persistentemente positivos" após o desaparecimento dos sintomas. Mas ele afirmou que os detalhes do caso no Japão sugerem que a paciente foi reinfetada.

Song Tie, vice-diretor do centro de controle de doenças da província de Guangdong, no sul da China, disse na quarta-feira que 14% dos pacientes que receberam alta na província tiveram teste positivo novamente e voltaram aos hospitais para observação.

Segundo ele, um bom sinal é que nenhum desses pacientes parece ter infectado mais alguém. (Com Reuters)