Secretários estaduais defendem isolamento e negam que medida seja política


Julliana Lopes, da CNN em Brasília
27 de março de 2020 às 20:51
Painel em Brasília alerta para pandemia do novo coronavírus

Painel em Brasília alerta para pandemia do novo coronavírus

Foto: Ueslei Marcelino - 24.mar.2020/Reuters

Em carta divulgada na noite desta sexta-feira (27), o Conselho Nacional de Secretários de Saúde defendeu irrestritamente as medidas sanitárias adotadas pelas unidades federativas do país. De acordo com as autoridades estaduais de saúde, as medidas de isolamento "não se pautam por cores partidárias ou de qualquer outra natureza, e sim por critérios técnicos e científicos observados ao redor do planeta."

O documento é divulgado depois de críticas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) às medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos. Nesta semana o presidente também defendeu o "isolamento vertical", que contempla apenas grupos de risco, como idosos e pessoas doentes.

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Para os secretários de saúde, se o Brasil atingir o pico da doença, o número de leitos disponíveis pode não ser suficiente para a quantidade de pacientes graves.

Os representantes também lembraram que em Milão, cidade italiana, 5.402 mortes foram registradas depois que a prefeitura incentivou o fim da quarentena em meio à pandemia. "Arrependimento tardio não recupera vidas perdidas", escreveram.

Confira na íntegra a carta do Conselho Nacional de Secretários de Saúde:

"Os Secretários Estaduais de Saúde, reunidos no Conass, se apresentam diante da sociedade brasileira para manifestar o que segue:

O Conass, em seus 38 anos de existência, sempre se colocou ao lado do povo brasileiro e na defesa de seu direito à saúde e à vida. Esta é nossa missão e nosso compromisso. Não faltaremos ao povo brasileiro neste momento de grave ameaça à saúde e à vida de todos. Pronunciamentos e orientações conflitantes das autoridades sobre medidas restritivas adotadas no enfrentamento do coronavírus geram intranquilidade e insegurança. Diante disso, manifestamos nossa posição oficial sobre a matéria e defendemos acondução técnica das medidas de combate pelos profissionais do Ministério da Saúde,em alinhamento e harmonia com os gestores estaduais e municipais de saúde do país.

Frente à Covid-19, que ameaça o mundo e o Brasil, seguiremos com nossa tradição de pautar nossas ações pelo mais elevado espírito público, pelas melhores evidências científicas e técnicas, pelas mais exitosas praticas internacionais, resistindo a qualquer ação estranha a isso e que possa colocar em risco a vida de nossa gente.

Defendemos irrestritamente as medidas sanitárias adotadas pelas unidades federativasdo país, pois não se pautam por cores partidárias ou de qualquer outra natureza, e sim por critérios técnicos e científicos observados ao redor do planeta. A doença não escolhe quem atinge. É implacável. Implacáveis e incansáveis devemos ser nós, e o povo brasileiro, contra ela.

Quanto mais alto for o pico do coronavírus no Brasil, mais alto será o número de pacientes graves a demandar atendimento médico ao mesmo tempo. O que estiver acima da capacidade assistencial de leitos representará desassistência, e desassistência, neste caso, significará morte.

Depois de trinta dias e 5.402 mortes, Milão admitiu os erros de ignorar a quarentena. Arrependimento tardio não recupera vidas perdidas. Que não tenhamos que nos arrepender mais tarde no Brasil por omissão neste momento. Cada dia de isolamento social importa. Cada vida brasileira importa. Por fim, conclamamos todos os gestores, capitaneados pelo Ministério da Saúde, a juntar esforços nesse desafio de magnitude ímpar. Na defesa do que nos é mais precioso: a saúde e a vida."