Isolamento vertical é impossível para conter coronavírus, diz infectologista

Infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), falou à CNN sobre como impedir avanço da COVID-19

Da CNN, em São Paulo
28 de março de 2020 às 18:42

O médico infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirmou à CNN, neste sábado (28), que o isolamento vertical é uma medida que impossível para conter o avanço do coronavírus no Brasil.

"No Brasil, nós temos uma convivência de população de todas as faixas etárias, com famílias populosas e transporte compartilhado", avaliou. "Então, a partir do momento que separa indivíduos mais vulneráveis a desenvolver formas graves da doença, você não consegue eliminar que essa outra parte da população, que está circulando - que está indo para a escola, bares, universidades -  não conviva com essa parcela mais vulnerável. Isto é impossível", completou.

Kfouri ainda exemplificou que países que adotaram essa alternativa de isolamento apenas dos grupos de risco tiveram explosão no número de casos e precisaram recuar para conter a doença. "Não há respaldo científico em nenhuma publicação nem modelo prático de implementação no modelo de isolar só algumas pessoas. Pelo contrário, os países que tentaram isolamento vertical tiveram que mudar rapidamente, porque o número de casos aumentou demais, como no Reino Unido, que logo teve que voltar atrás", esclareceu.

Em relação ao fato de alguns profissionais de saúde estarem defendendo o isolamento vertical, o infectologista diz que trata-se de uma "divisão é bastante desigual". "Os grandes especialistas seguem, ou pelo menos entendem, que o posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) é o ideal. É onde se baseiam as evidências científicas de países que implementaram esse tipo de modelo de distanciamento", explicou.

O especialista diz entender que o isolamento horizontal, que é o recomendado pela OMS, pode ser complicado para as classes sociais mais baixas no Brasil, mas afirmou que o país parece estar fazendo o melhor diante da situação.

"Claro que a gente precisa que em metrópoles, como São Paulo, e em classes sociais de melhor poder econômico, a realização desse isolamento é muito mais simples, porque a gente sofre pelo tédio de ficar em casa. O que é muito diferente de outras regiões e comunidades desse país, onde o distanciamento é praticapormente impossível: o transte público é carente, a moradia é populosa e o compartilhamento de ambientes é inevitável. Então, dentro do possível, olhando para esses dois Brasis dessas duas realidades, nós estamos, sim, conseguindo fazer a lição de casa", considerou.

Kfouri diz que vê o coronavírus começando a mudar os hábitos dos brasileiros. "Essa epidemia já começa a mostrar um pouco do legado que vai deixar para gente, porque nunca se viu momento de tanta cidadania, solidariedade e preocupação com a higiene", conclui.