Célula-tronco é usada contra COVID-19, mas especialistas fazem alerta


José Brito da CNN, em São Paulo
05 de abril de 2020 às 10:56 | Atualizado 06 de abril de 2020 às 19:33
Homem usa máscara em frente do hospital Santa Maggiore, em São Paulo

Homem usa máscara para se proteger do coronavírus em frente do hospital Santa Maggiore, em São Paulo: diretor-executivo da Prevent Sênior confirma que células-tronco estão sendo usadas para tratamento de casos graves de COVID-19 no local

Foto: Rahel Patrasso/Reuters

Mais um novo tratamento está sendo usado contra o novo coronavirus. É a infusão de células-tronco mesenquimais (CTM), um tipo de células-tronco adultas multipotentes e de fácil isolamento e cultivo, para reduzir o processo inflamatório causado pela agressão do vírus no corpo. A rede Prevent Senior confirmou o uso da técnica, mas alguns dos principais especialistas do Brasil em CTM ainda alertam para a falta de pesquisas que garantam seus benefícios.

Em entrevista à CNN, o diretor-executivo da Prevent Sênior, Pedro Batista Júnior, revela que a técnica está sendo usada em pacientes em estado grave, nos hospitais Sancta Maggiore. Os hospitais da rede de planos de saúde possuem oficialmente 79 das 304 mortes, no estado de São Paulo. “Para pacientes que evoluíram na fase grave da doença com necessidade de intubação (procedimento de suporte a respiração) e já haviam iniciado o uso da hidroxicloroquina e azitromicina, mas ainda tinham situações pulmonares agravadas, foi indicada pela equipe técnica de médicos o uso compassivo de células-tronco mesenquimais para controle e resposta mais adequada do processo de recuperação dos pulmões”, revela. 

Para o médico e pesquisador da Fiocruz e Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Bruno Solano, é importante separar o que é pesquisa científica e o que é o uso terapêutico. “Hoje todas as sociedades internacionais de terapia celular não recomendam que seja feito o uso comercial de células-tronco para o tratamento do COVID-19.”, explica.  

Solano afirma que, nesse momento, pode acontecer o ímpeto de testar todas as alternativas nos pacientes e temos que lembrar que a terapia celular não é isenta de risco. “Não sabe se não vai piorar o quadro clínico nos pacientes. Então a gente recomenda que sejam feitos ensaios clínicos que tragam as informações se, de fato, é eficaz e se é seguro. O que é importante passar para a população é que ainda não é possível indicar esse tipo de tratamento para uso disseminado da COVID-19”, alerta o pesquisador.

Cautela seguida pela diretora do Centro de Estudos em Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), drª. Mayana Zatz, que reforça ainda que não existem estudos científicos que comprovem a eficácia dessa estratégia. “Para a gente saber se um estudo é válido clinicamente, para comprovar a eficácia de um tratamento, você precisa ter um grupo tratado com células-tronco e outro grupo que não foi tratado com células-tronco. É o chamado teste duplo cego”, explica a geneticista.  

Mas, segundo Pedro Batista, da Prevent Sênior, em todos os casos de pacientes tratados com essa técnica, houve consentimento das famílias. Eles apresentaram uma estabilidade clínica e melhora radiológica, mas o plano de saúde não pode informar quantas pessoas fazem uso de células-tronco no momento. A capital paulistana possui 1,7 milhão de idosos, sendo 460 mil atendidos pela Prevent Sênior. “O nosso dado é verdadeiro e corresponde a 25% da população de idosos da cidade de São Paulo”, diz o médico. No momento, a operadora possui cerca de 1.100 casos testados, sendo 550 confirmados e 272 internados por COVID-19. 
 
Uma das primeiras pacientes a receber o tratamento com células-tronco foi a mãe dos fundadores da rede de planos de saúde. De acordo com o médico, o uso compassivo de CTM apresentou uma melhora significativa, a partir do quinto dia de tratamento. “Hoje, ela já está sem sedação, sem drogas e está otimizando o desmame de ventilação mecânica. Ela foi um dos nossos casos mais graves e não é mais.”, explica Batista Júnior.

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O diretor explica ainda que possuem parcerias com laboratórios que produzem células-tronco, no Brasil, e esse procedimento foi indicado de acordo com um estudo de pesquisadores da China. O artigo investigou o transplante de células-tronco mesenquimais em sete pacientes com pneumonia COVID-19 no Hospital YouAn de Pequim, na China, de 23 de janeiro a 16 de fevereiro de 2020. “As células-tronco mesenquimais (CTMs) demonstraram possuir uma função imunomoduladora poderosa e abrangente”, conclui o documento. 

Os resultados clínicos da pesquisa mostraram ainda que as alterações inflamatórias e imunológicas dos níveis funcionais e os efeitos adversos dos sete pacientes foram avaliados por 14 dias após a injeção de células-tronco. “As CTMs podem curar ou melhorar significativamente os resultados funcionais de sete pacientes sem efeitos adversos observados. A função pulmonar e os sintomas desses sete pacientes melhoraram significativamente em 2 dias após o transplante de CTM. Entre eles, dois pacientes comuns e um grave foram recuperados e receberam alta em 10 dias após o tratamento”, dizem os pesquisadores. 

No Brasil, as médicas e professoras do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Patricia Rocco e Fernanda Cruz, conduzirão dois estudos no país com célula-tronco em pacientes com COVID-19. Estes projetos serão submetidos ao Comitê de Ética, neste fim de semana. Um com células-tronco derivadas de cordão umbilical, outro com subprodutos de células-tronco derivadas de medula óssea. “Estas pesquisas em modelos experimentais já apresentaram indícios de melhora na inflamação e na função pulmonar em animais com lesão pulmonar aguda”, explica Fernanda.

Segundo Cruz, as células-tronco mesenquimais já foram testados em humanos em outras doenças e já se mostraram seguras, portando se apresentam como uma potencial alternativa ao tratamento dos pacientes com COVID-19. “Os efeitos que a gente vê com a administração das células, a gente também vê com esses pedacinhos das células, que são as vesículas extracelulares, e a vantagem desse uso é que eles têm menor risco de obstruir vasos sanguíneos, devido ao seu pequenos tamanho.”