Praias estão reabrindo nos Estados Unidos

Desafio é limitar o número de pessoas para que o distanciamento social possa ser feito nos locais, diz especialista

Marnie Hunter, CNN
26 de abril de 2020 às 17:16
As praias reabriram em Jacksonville, na Flórida, em 17 de abril.
Foto: Sam Greenwood/Getty Images

As praias estão reabrindo em alguns dos estados mais ensolarados do sul dos Estados Unidos. Não há como conter essa maré de aberturas, quando as próprias autoridades pressionam para que as pessoas saiam do isolamento e reaqueçam a economia. Mesmo assim, podemos continuar vivendo com as restrições afrouxadas com o tipo de pensamento que nossa nova realidade do distanciamento social exige. 

“O que tiver de acontecer, vai acontecer", disse o médico William Schaffner, especialista em doenças infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade Vanderbilt. “Minha pergunta é: como isso vai acontecer?" Trata-se de pergunta justa, dada a cena na semana passada, quando Jacksonville, na Flórida, recebeu de volta os banhistas. 

A abertura dessa praia às 17 horas do dia 17 de abril provocou o encanto de muitos moradores confinados – mas, em medida ainda maior, bombou a hashtag #FloridaMorons (ou “idiotas da Flórida”), criticando a forma negligente com o distanciamento social que pode aumentar a disseminação do vírus.

Na quarta-feira, 22 de abril, o governador da Flórida Ron DeSantis defendeu a decisão tomada pelos líderes locais de reabrir as praias e pareceu fazer referência à hashtag.

“Tiro meu chapéu para o povo de Jacksonville e do nordeste da Flórida por fazer um ótimo trabalho", disse DeSantis. “Para aqueles que dizem que vocês são idiotas, digo que prefiro vocês aos críticos em qualquer dia da semana e duas vezes no domingo."

As aberturas e fechamentos de praias são uma colcha de retalhos entre os estados, misturando ordens estaduais e locais que se sobrepõem e que refletem os ajustes e o início de uma resposta mais ampla ao coronavírus. Na sexta-feira, a cidade de Panama City Beach juntou-se a um número crescente de praias da Flórida abertas algumas horas por dia.

Na Carolina do Sul, os acessos às praias reabriram na terça-feira, dia 21, com o fim da ordem executiva do governador Henry McMaster, embora algumas comunidades tenham mantido restrições e pontos de verificação locais para limitar o número de banhistas. Algumas praias também abriram na Carolina do Norte, onde um pedido de confinamento em casa foi prorrogado até 8 de maio. No Mississippi e no Texas, a abertura de praias é decidida no nível do condado. Já no Alabama, elas permanecem fechadas.

Na Geórgia, as praias foram autorizadas a permanecer abertas mesmo após a ordem estadual de ficar em casa que entrou em vigor em 3 de abril – a lei estadual derrubou os bloqueios que algumas comunidades costeiras haviam implementado. A maioria das praias fica aberta por um período limitado de horas e apenas para exercícios não estacionários, como caminhar, correr e nadar. Multas por se sentar e tomar sol são válidas para alguns locais, embora o nível de fiscalização ainda esteja variando muito. Muitos estacionamentos e instalações permanecem fechados.

No entanto, mesmo com algumas praias e empresas reabrindo, um modelo da pandemia de coronavírus frequentemente citado pela Casa Branca afirma que os estados da Geórgia, Carolina do Sul e Flórida devem esperar até 8 de junho ou mais tarde para reabrir com segurança. Construído pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington, o modelo mostra o nível em que os estados podem usar outras medidas de contenção (como testes em massa, rastreamento de contatos e isolamento) no lugar do distanciamento social.

A praia não é o problema, mas os comportamentos


As boas notícias? Por si só, um passeio na praia não é algo ruim, de acordo com o médico Daniel Griffin, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Columbia. “Ir a uma praia deserta com seu grupo social ou ‘quarentime’ pode ser uma experiência divertida, leve e segura", opinou Griffin por e-mail. “O desafio é limitar o número de pessoas na praia para que o distanciamento social possa ser feito".

Nas praias de Jacksonville, essas medidas pareciam erráticas, para dizer o mínimo, na sexta-feira passada. O doutor Schaffner, da Universidade Vanderbilt, acha que o monitoramento seria uma boa forma de garantir que os banhistas norte-americanos seguissem os protocolos de distanciamento social. As comunidades costeiras podem empregar pessoas extras para abordar e lembrar os visitantes sobre o uso de máscaras e manter uma distância segura, disse ele.

“Minha experiência nas praias é que, a menos que elas sejam remotas, haverá uma dificuldade real em manter a regra dos dois metros de distância", explicou. Ele não está confiante de que as pessoas estejam aderindo o suficiente às medidas necessárias para reduzir o risco de transmissão de coronavírus nas praias – ou em outros lugares.

Como se manter seguro na praia


Pensar e planejar qualquer passeio é fundamental para mitigar os riscos, disse Schaffner, e os banhistas devem usar máscaras quando estão perto de outras pessoas.  É preciso também ficar atento aos estacionamentos, que podem ser especialmente problemáticos em termos de proximidade com outros visitantes.

O médico sugere fazer uma visita de uma hora, mesmo que muitas praias estejam abertas por várias horas de manhã e à noite. “Você chega, coloca a máscara quando sai do carro para ter certeza de que não encontrará ninguém e depois desce à praia. Se não houver ninguém lá, você pode tirar sua máscara", aconselhou Schaffner. “Faça o seu exercício e, ao voltar para o estacionamento, volte a colocar a máscara até poder entrar em seu carro com segurança novamente."

Esta realidade estará conosco por muito tempo, disse Schaffner, e a adoção dessas práticas é importante para a nossa segurança. “Sou realista. Reconheço que não dá para ser perfeito. Mas podemos fazer isso da melhor maneira possível, imperfeitamente?" A julgar por suas observações, ele não tem tanta certeza assim.