'Protocolo da cloroquina é questionável e pressiona médicos', diz infectologista

Profissional destacou a falta de evidência científica e falou sobre os riscos de problemas cardíacos e até de morte associados ao uso da substância

Da CNN, em São Paulo
20 de maio de 2020 às 12:07 | Atualizado 21 de maio de 2020 às 09:23

O infectologista Marcelo Otsuka, coordenador do Comitê de Infectologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Infectologia, disse à CNN, nesta quarta-feira (20), que o novo protocolo para o uso da cloroquina é questionável e pressiona os médicos a prescreverem a substância contra casos de Covid-19 mesmo sem eficácia comprovada.

"A proposta de introduzir a cloroquina na fase inicial da doença tem lógica por um lado, que é tentar impedir que a doença se instale, mas nenhum estudo indica isso até o momento. Então, é sempre questionável quando um protocolo é instituído sem ter certeza se o medicamento vai ser adequado", avaliou ele, que ainda viu possibilidade de pressão para a prescrição médica.

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"Infelizmente, isso leva a alguma pressão, sim, o que não é interessante porque não temos comprovação da eficácia", reforçou Otsuka. "De certa forma, o termo tenta eximir o médico da culpa, mas ele continua sendo responsável pela prescrição, então independente de ter o consentimento ou não, ele segue responsável", acrescentou.

O médico ainda destacou a falta de evidência científica. "É importante entender que hidroxicloroquina, a cloroquina ou azitromicina não têm estudos robustos que demostram eficácia no tratamento pelo novo coronavírus. O tratamento de base continua sendo o de suporte. E se a gente fosse pensar que algum medicamento seria milagroso e resolveria o problema, já teria muitos outros estudos demonstrando isso, o que até o momento não aconteceu", disse.

Otsuka também falou sobre os riscos de problemas cardíacos e até de morte associados ao uso do medicamento. "A dose preconizada para o tratamento da Covid-19 é muito maior superior a que utilizamos para outras doenças. Inclusive, estudos iniciais na China usavam uma dose grande. Nós tentamos reproduzir isso no Brasil e observamos aumento da mortalidade", afirmou.

"Além disso, a própria doença pelo novo coronavírus pode levar a alterações cardíacas, então estamos juntando duas situações críticas aqui. É muito questionável quando há tantos estudos falando contra isso". O infectologista ressaltou que o ideal é continuar usando o tratamento de suporte. "Até o momento, é o grande fator que realmente salva vidas", concluiu.