Enterros sobem 57% e SP inaugura cemitério vertical exclusivo para Covid-19

Número de sepultamentos diários disparou; conheça a estrutura com exclusividade

Por Pedro Duran e André Rosa da CNN, em São Paulo
24 de maio de 2020 às 07:05

As 326 gavetas do bloco de mármore falso no estacionamento do cemitério da Vila Alpina vão começar a ser ocupadas a partir desta segunda-feira (25). Elas fazem parte do plano municipal de contingenciamento para o Serviço Funerário, que está trabalhando além do limite.

A mudança foi provocada pela pandemia do novo coronavírus, que está matando uma média de 79 pessoas na capital paulista no mês de maio. A cidade já ultrapassou a marca de 3 mil mortes. O número de sepultamentos diários disparou. No ano passado, a média foi de 183 sepultamentos por dia em abril e 193 em maio. Neste ano, a média subiu para 276 sepultamentos em abril e 304 em maio, 57% a mais do que 2019.

Para conseguir dar conta disso, a cidade de São Paulo elaborou um plano de quase R$ 40 milhões, que conta com a abertura de 13 mil valas antecipadamente, além da construção de um cemitério vertical.

Construído no estacionamento do cemitério da Vila Alpina, onde também funciona o crematório municipal, a primeira parte do cemitério vertical de São Paulo tem 326 gavetas. Ele foi erguido em menos de um mês. A CNN antecipou os planos para que isso acontecesse ainda no mês de março. Outros dois blocos vão completar mil vagas para caixões, que podem ser armazenados dois anos até que seja feita a exumação.

Lá serão armazenados apenas os caixões de mortos com confirmação ou sob suspeita de Covid-19. Com a média de 79 mortos por coronavírus por dia, o primeiro bloco poderia ficar totalmente preenchido em menos de cinco dias e as mil gavetas durariam menos de duas semanas, isso se fossem encaminhadas para lá todas as vítimas da doença.

Estrutura

O revestimento do cemitério é feito com uma imitação de mármore, que usa fibra de coco e bagaço de cana de açúcar. Já as gavetas onde ficam os caixões são feitas de garrafas PET recicladas. Mais de 120 garrafas são usadas para construir as gavetas que tem coloração amarelada.

O material reciclado e o uso do plástico também agiliza a montagem das estruturas, já que é um material mais leve, fácil de carregar.

Dentro das gavetas, tubos de sucção garantem pressão negativa, ou seja, sai mais ar do que entra. O sistema foi instalado para evitar a proliferação dos vírus e bactérias e se assemelha ao que é usado em aviões, inclusive tem a mesma cola plástica que é usada em casos de rompimento da carcaça durante os vôos. Ela será usada para vedar as gavetas.

As gavetas estão todas interligadas, os gases são recolhidos por uma tubulação amarela e o ar puro é introduzido pela tubulação azul. Depois da troca, os gases vão para a central de tratamento, que é aberta por um cartão magnético.

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Controles em Recife

Contratado de uma empresa privada, o cemitério vertical será comandado por um sistema conectado à internet, com wi-fi próprio. Por isso, não terá funcionários. Funcionários do próprio Sistema Funerário foram treinados para armazenar os caixões e fechar as gavetas.

O cemitério vertical tem uma central de controle dentro dele, dividindo espaço com as gavetas. De lá, é possível checar o trabalho das máquinas que transformam os gases que saem das gavetas e são tratados para serem dispersados no meio ambiente. Partículas de plástico, aço e carvão ativado são usadas nessa transformação. Todos os níveis monitorados eletronicamente são controlados e comandados pela sede da empresa, que fica em Recife.

Contêineres e tendas

No cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, já foram instalados dois contêineres refrigerados para armazenar os caixões no caso de os sepultamentos sobrecarregarem. Uma tenda montada também tem palets de madeira e exaustores para comportar até 211 caixões numa espécie de agência funerária improvisada.

As câmaras refrigeradas já foram testadas e vão funcionar com 3ºC de temperatura. Toda essa estrutura começará a ser usada quando a cidade ultrapassar a marca de 400 sepultamentos por dia. Quando isso acontecer, 18 dos 22 cemitérios municipais serão fechados, pra concentrar os esforços em apenas quatro.

Para o Secretário das Subprefeituras, Alexandre Modonezi, isso está perto de acontecer. “Talvez daqui a uns quinze dias. Depende muito. Quanto mais a secretaria de saúde tem conseguido abrir vagas de hospital, mais a gente tem alongado a curva e a quantidade de óbitos na cidade. Então cada semana tem sido ainda ampliado e com isso a gente tem conseguido não ter esse número ainda de 400 óbitos na cidade”, diz ele.

Alarmismo ou precaução?

Questionado pela reportagem da CNN das críticas que a prefeitura de São Paulo vem recebendo por supostamente estar sendo ‘alarmista’ pra provocar o medo nas pessoas, o Secretário Alexandre Modonezi disse que o objetivo da nova infraestrutura não é esse.

“O que nós estamos criando é uma condição de suportar esse adicional que o Covid está trazendo pra cidade. [não tem alarmismo?] Não tem alarmismo. As pessoas não estavam acostumadas a olhar as valas que são abertas diariamente na cidade. Isso passou a ser olhado agora. A cidade sempre abriu várias valas e fechou essas valas com sepultamentos. E nós criamos um plano de contingência. Pra não acontecer o que aconteceu em Nova York, Quito e outras cidades, de terem corpos que ficaram três, quatro dias nas ruas, porque não tinha essa condição de fazer sepultamentos. Acho que nós estamos tentando minimizar qualquer problema que venha a ocorrer nesse sentido”, disse.

“A gente tendo um aumento do número de sepultamentos a gente precisa ter mais velocidade ao fazer o sepultamento pra não ficar nenhum corpo parado em algum hospital, largado em residências, que foi o que aconteceu em outros países do mundo. Então pra evitar que isso aconteça aqui, a gente elaborou o plano de contingência, exatamente montando uma estrutura pra dar atendimento e pra dar vazão aos sepultamentos”, completou.

O plano de contingência anunciado em abril pelo prefeito Bruno Covas (PSDB), foi antecipado pela reportagem da CNN no fim de março. Ele inclui a contratação de 220 coveiros e 40 motoristas para carros funerários, o que praticamente dobra a frota de 36 para 68 carros, com o objetivo de agilizar o transporte dos mortos.

“A nossa preocupação é de estarmos preparados para organizar e minimizar dor das famílias, para que elas possam dar um sepultamento digno aos entes que serão perdidos. Por isso, elaboramos este plano de contingência, para que a gente possa ter um funcionamento adequado do sistema funerário na cidade de São Paulo”, disse o prefeito.