Pandemia deixa brasileiros mais ansiosos e depressivos


Débora Freitas e Stéphanie Nascimento, da CNN, em São Paulo
06 de junho de 2020 às 17:52 | Atualizado 09 de junho de 2020 às 18:43

Há mais de dois meses que a pandemia do novo coronavírus está todos os dias no noticiário e nas conversas pessoais. Com a doença e o isolamento social o mundo passou a se relacionar de outra forma. Com isso, veio a preocupação com a saúde mental.

Uma pesquisa recente feita pela Fiocruz em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas mostra que 54% dos brasileiros se sentiram ansiosos ou nervosos por causa do isolamento social imposto pela pandemia. 40% passaram a se sentir tristes ou deprimidos.  A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) também fez um levantamento entre seus membros no início de maio.

De acordo com o resultado, houve um aumento de 25% nas consultas. 89,2% dos entrevistados informaram que houve agravamento dos sintomas em pacientes que já estavam em tratamento. De acordo com presidente da ABP, Antônio Geraldo da Silva esse aumento já era esperado.

“Nós, psiquiatras, já prevíamos que a pandemia iria gerar uma situação de angústia, medo, desespero, paranoia, aumentando o consumo de bebidas e outras drogas, fazendo uma situação de maior padecimento de transtornos de ansiedade e transtornos depressivos”.

Com o distanciamento social, os atendimentos psicológicos passaram a ser online. A securitária Edleusa Pereira tinha recebido alta da terapia, mas no último mês percebeu que precisava voltar. “Todo ano, o dia das mães eu passava com minha mãe, meus irmãos e com a minha filha. E foi o primeiro ano que eu fiquei literalmente sozinha. É muito ruim, você está cheio de vontade de ficar bem, mas não dá pra ficar bem”.

Leia também:

Casos globais de Covid superam 7 milhões com salto de Brasil e Índia

Cinco hospitais brasileiros testarão plasma sanguíneo contra Covid-19

Embora a psicoterapia online já seja regulamentada desde 2018, algumas regras precisam ser seguidas pelos profissionais neste momento, como explica a presidente do Conselho Federal de Psicologia, Ana Sandra Fernandes. “É preciso garantir a qualidade do ponto de vista técnico e ético para o atendimento e, primordialmente, garantir a confidencialidade das informações”.

Os especialistas da área da saúde afirmam que o estresse e a ansiedade são reações normais na vida do ser humano. Porém, se tornam um problema quando começam a gerar perdas. E nesse momento é preciso procurar ajuda profissional para saber qual o tratamento mais indicado. Mas muita gente tem encontrado equilíbrio em atividades que estimulam o autoconhecimento, a mente e o corpo.

É o caso do gerente de inovação André Mainart. Ele está em home office desde o início da pandemia e divide o tempo entre o trabalho e os cuidados com o filho de dois anos. Isolado na propriedade da família, ele começou a meditar com a ajuda de um aplicativo. “A minha vida como executivo na empresa está uma loucura. Muitas reuniões e projetos rodando ao mesmo tempo. E isso estava sendo muito difícil para mim. Absorver tudo ao mesmo tempo e a questão familiar e pessoal. Então, essa consciência do que é mais importante para mim, o que estava pesando mais e não estava me fazendo bem, acho que o que trouxe isso foi a meditação”.

De acordo com levantamento exclusivo feito pela RankMyApp, empresa de inteligência e marketing, para a CNN, os downloads de aplicativos de meditação cresceram 44% em abril, na comparação com o mês de março. Foram 59 mil instalações realizadas.

A especialista em inovação Helena Wataya também encontrou na meditação uma forma de relaxar em meio às reuniões infinitas pelo computador. Como deu certo, decidiu contratar uma profissional para ajudar toda a equipe. “Todo dia, a gente dá um tempo maior. Cada dia é uma coisa diferente, mas sempre focado em respiração, em acalmar, em ‘setar' o foco e alongar o corpo. E os feedbacks sempre foram muito legais. As pessoas enxergaram valor, acharam que fez diferença, então a gente continuou.”

Já o engenheiro agrônomo Ricardo Borgianni encontrou nas aulas de yoga online uma forma de controlar o medo do novo coronavírus. Segundo ele, a angústia chegava a dificultar a respiração. “A yoga te obriga a respirar. Então, durante uma hora já comecei respirando, então já senti um alívio, mais todos os movimentos, a meditação, o relaxamento que eu faço, que comecei a fazer. E eu pus isso como minha obrigação maior. Eu percebi que o que eu tinha que fazer nesse momento era cuidar da minha sanidade. E isso vai trazendo muita paz para você criar coragem para enfrentar as coisas que precisa com consciência, não loucamente, mas planejando todos os protocolos sanitários que a gente precisa fazer”.

O distanciamento social ainda deve permanecer por um bom tempo e o novo normal pode ser uma oportunidade para incluir na rotina hábitos que protejam a saúde mental.

Para Ana Sandra, é preciso acolher e compreender as pessoas pra entender o que todos nós sentimos. “Eu acho importante que a gente produza nesse momento um movimento para ver que o isolamento é só físico, ele não pode ser de afeto. Justamente porque somos seres que estamos numa cultura para quem o afeto é importante. Precisamos criar uma rede de apoio e usar a tecnologia de forma positiva.