Estudo brasileiro analisa eficácia da dexametasona em casos graves de Covid-19


Anna Satie, da CNN, em São Paulo
17 de junho de 2020 às 18:06 | Atualizado 17 de junho de 2020 às 18:10

O pesquisador e médico do Hospital Sírio-Libanês, Luciano Cesar Pontes de Azevedo, falou à CNN nesta quarta-feira (17) sobre as diferenças do estudo conduzido por pesquisadores brasileiros que também testam a eficácia da dexametasona no combate à doença respiratória causada pelo novo coronavírus. Uma pesquisa semelhante está sendo realizada pela Universidade de Oxford, na Inglaterra e tem demonstrado redução no número de mortes provocadas pela doença.

O grupo do qual Azevedo faz parte, o Coalizão COVID Brasil, reúne 40 hospitais na busca por alternativas para o combate ao novo coronavírus. De acordo com ele, que também lidera a pesquisa no cenário nacional, existem pontos que diferem as pesquisas: a utilização da droga apenas em casos graves e dosagem utilizada durante o tratamento.

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"Nosso estudo não é o mesmo estudo realizado pelos ingleses. A diferença do nosso trabalho é que nós estamos fazendo a aplicação do corticoide apenas nas fases mais graves da doença — pacientes com comprometimento mais grave da respiração, além de uma dosagem diferente [durante o tratamento]", explica. 

Ele explica que o estudo inglês não seguiu a praxe científica, de publicar o estudo em uma revista especializada após a revisão de pesquisadores que não fizeram parte da análise, a chamada revisão por pares.

"A discussão deve considerar que o Recovery foi publicado como um comunicado à imprensa. Cadê os dados? A característica dos doentes, por quanto tempo tomaram [o medicamento], quais foram os efeitos colaterais. Todas essas são coisas que precisamos analisar antes de tornar essa terapêutica como padrão". 

Azevedo reconhece que o estudo foi feito por um grupo com registro de trabalhos anteriores muito importantes. "Não é uma pesquisa feita por um zé-ninguém e solta na internet como qualquer fake news. A chance de estarem errados é muito baixa, vemos com otimismo, mas com um pouco de cautela, pois não é o procedimento habitual". 

Segundo ele, os corticoides são medicamentos que combatem a inflamação, o que auxilia na diminuição das chances de morte de um paciente que esteja entubado e em estado grave da doença.

O médico alertou ainda que o uso do medicamento fora do clínico mencionado poderá causar danos a saúde e efeitos colaterais como aumento de risco de infecções secundárias, hiperglicemia e alterações neurológicas. Em casos leves, pode até prolongar a fase inicial da doença —na qual o vírus é transmitido e se reproduz em maior velocidade.

"Não faz sentido as pessoas irem às farmácias comprarem os corticoides de maneira preventiva", disse. "Não é para 'estou sentindo uma dor de cabeça, pode ser Covid, vou comprar e tomar'. Não é preventivo e nem para casos leves. Esse remédio tem seus efeitos colaterais, pode aumentar o risco de uma infecção bacteriana ou o quadro viral. É um anti-infamatório muito potente", concluiu.