Entrave para comprar testes de Covid-19 afasta Brasil de meta

O processo de aquisição de 12 milhões de testes rápidos teve reviravoltas

Estadão Conteúdo
20 de junho de 2020 às 13:46
Imagem de teste para detecção de Covid-19 em São Paulo
Foto: Adailton Damasceno - 26.mai.2020/Estadão Conteúdo

Anunciada no dia 20 de abril, a compra emergencial de 12 milhões de testes rápidos da Covid-19 está travada no Ministério da Saúde. O processo não tem data para ser concluído e, segundo apurou o Estadão, pode até ser cancelado por questionamentos sobre possíveis irregularidades. Se confirmada a desistência, a promessa de realizar 46,2 milhões de exames de diagnóstico no Brasil ficará ainda mais longe. Mesmo após quase dois meses sem conseguir avançar, a meta continua sendo celebrada por canais oficiais da gestão Jair Bolsonaro nas redes sociais.

O processo de aquisição de 12 milhões de testes rápidos teve reviravoltas. No fim de maio, o laboratório Abbott passou a ser o favorito para levar o certame após conseguir o registro de seu produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Sem licitação, sob argumento de ser "emergencial", a compra levanta desconfiança dentro do Ministério da Saúde.

Leia também:
Farmacêutica começa etapa final de testes de vacina contra a Covid-19 em julho
USP inicia testes, em animais, de vacina brasileira contra o novo coronavírus
Testes rápidos detectaram 26% dos novos casos da Covid-19 em SP em junho

Alguns gestores chegaram a pedir a sua anulação, ainda durante a gestão de Nelson Teich, que deixou a pasta no mês passado. Uma das razões seria a entrega de dados da compra para pessoas que acompanham a disputa. Outra seria a limitação dos testes rápidos que têm baixa sensibilidade se aplicados nos primeiros dias de sintomas.

O exame de diagnóstico da Covid-19 em larga escala é um dos pilares da estratégia do governo para enfrentar a pandemia, mas o Brasil testa pouco, quando comparado a outros países. O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, tem dito a interlocutores que para vencer a "guerra" contra a doença o "mais importante" é melhorar a triagem de pacientes e medicá-los o quanto antes, até mesmo com a cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada.

O governo federal discute com Estados e municípios ampliar o uso de exames de imagem ou clínico-epidemiológicos para o diagnóstico do novo coronavírus. Na leitura de gestores do Sistema Único de Saúde (SUS), a medida evitaria ficar refém da disponibilidade de testes, mas infectologistas alertam que o ideal é o exame laboratorial.

A promessa do governo é distribuir 22 milhões de testes do tipo rápido, sendo 10 milhões doados de empresas e 12 milhões comprados. Cerca de 7,52 milhões já foram entregues a Estados e municípios. O exame rápido detecta anticorpos para a Covid-19, indicando que a pessoa já foi infectada, e deve ser aplicado após o sétimo dia de sintomas. Caso contrário, a chance de falso negativo é alta.

Para atingir 46,2 milhões de exames, o ministério promete distribuir também 24,2 milhões de testes do tipo RT-PCR, que detecta a presença do vírus. Tido como de "padrão ouro" para diagnósticos, o equipamento é aplicado nos primeiros dias de sintomas de pacientes.

Após quase quatro meses desde a confirmação do primeiro infectado pelo coronavírus no Brasil, o governo entregou cerca de 3 79 milhões de exames desse tipo, ou seja, pouco mais de 15% do prometido. Mesmo sem nem sequer ter se aproximado dos 46,2 milhões prometidos, um dos perfis oficiais da gestão Bolsonaro nas redes sociais, a @SecomVC, destacou "Mais 46,2 milhões de testes" entre as ações do governo contra a Covid-19, em publicação feita no Twitter em 13 de junho.

O próprio Bolsonaro, quando cobrado sobre avanço do novo coronavírus nos Estados, tem dito que já fez a sua parte. Ele atribui a gestores locais a culpa pelo aumento de casos. "Já ajudamos com dinheiro" disse o presidente na última segunda-feira a uma apoiadora que afirmava que Roraima "precisa de ajuda".

Testagem baixa

O ministério lançou o programa Diagnosticar para Cuidar, em 6 de maio, com a promessa de realizar teste de diagnóstico em larga escala, com exame RT-PCR, e pesquisa epidemiológica, com uso do produto "rápido."

Mas, até 4 de junho, a rede pública havia feito apenas cerca de 555 mil exames. A estimativa total de testes realizados no País é imprecisa, pois sistemas de unidades privadas e públicas de saúde não dialogam. Técnicos do ministério apontam que cerca de 1,7 milhão de exames já foram aplicados. Conforme revelou o Estadão, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) já alertou o Palácio do Planalto sobre o baixo número de testes.