Correspondente Médico: como lidar com desgaste na relação durante a quarentena?


Da CNN
29 de junho de 2020 às 11:59

Em meio à pandemia de Covid-19, até divórcios online passaram a ser realizados. Na edição desta segunda-feira (29) do quadro Correspondente Médico, do Novo Dia, da CNN, o neurocirurgião Fernando Gomes falou sobre como casais podem enfrentar o desgaste da quarentena. O especialista também falou sobre como lidar com o dilema entre saúde e saudade no caso dos idosos e esclareceu se a chegada do inverno pode agravar quadros de depressão.

Sobre o primeiro tema, o médico explicou a linha do tempo natural de todo relacionamento amoroso - que pode ou não ter a separação como desfecho, segundo dados que apontam o divórcio em 30% dos casamentos.

"Existe uma fase da paixão – na qual alguns neurotransmissores estão mais presentes, como a dopamina, que dá aquela sensação de felicidade. Depois vem o amor romântico, na qual o casal já usufrui dos benefícios do elo estabelecido. Na sequência, o amor companheiro, quando a paixão já não arde como antigamente, mas seguem os benefícios, e facilidades podem ser desfrutadas", esclarece ele.

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Diante desse ciclo natural, o médico esclarece que a proximidade intensa imposta pelo isolamento "colocou uma lente de aumento" nos relacionamentos, mas frisa que é necessário dar um tempo para entender o rumo da relação, além de conversar com a outra pessoa para compreender se a insatisfação é de todos os envolvidos.

"Com essa situação, temos a chance de prestar atenção em nós mesmos e desenvolver com isso a inteligência intrapessoal, e entender o que é importante e o que não é", pontua. "Quando temos duas pessoas vivendo na mesma casa, entendemos que o relacionamento é uma terceira pessoa – e precisamos dar um tempo para entender essa relação."

Solidão dos idosos

Em relação aos idosos, o neurocirurgião avalia que o isolamento obrigatório aumenta a dificuldade para lidar com a solidão – que, ele ressalta, é diferente da solitude, que caracteriza o isolamento voluntário.

"Muito idosos já têm uma facilidade natural em lidar com essa situação de solitude, mas quando ela é prolongada e deixa de ser voluntária, a gente tem a manifestação da solidão, que pode impactar na capacidade cognitiva e mental das pessoas", explica, acrescentando que pode ser "a porta de entrada para um quadro demencial".

"Isso porque a entrada de informações novas deixa de acontecer se não houver um gerenciamento da própria pessoa e das pessoas que gostam dela e poderiam, de alguma forma, manter essa conexão", completa.

Para diminuir essa sensação de solidão dos idosos durante o isolamento social, o médico indica ligações telefônicas e videochamadas, além de dar dicas de livros, filmes e até a discussão de alguma notícia para trazê-la de volta ao contexto atual.

"A internet simplesmente representa um instrumento. Precisamos justamente colocar nosso amor em prática e utilizá-lo para manter essa conexão", disse.

Inverno e depressão

Por fim, Gomes explicou a relação entre inverno e quadros depressivos. Ele afirmou que "há evidências científicas de que existem percepções diferentes de acordo com a alteração da temperatura e da umidade", que são influenciadas pela a luz solar e as estações do ano.

Segundo ele, as mulheres tendem a ter mais resposta de reações emocionais e fisiológicas por conta desses aspectos. "É natural que em cidades em que a luz solar é menos presente exista uma tendência maior a uma introspecção e necessidade maior de, muitas vezes, estar com amigos em bares - o que é um desafio adicional no isolamento", exemplifica.

Esse quadro pode ser ainda mais presente caso a pessoa ainda tenha uma tendência genética a uma manifestação de ansiedade, depressão e tristeza. "Isso tem relação com a luz solar", conclui.

(Edição: Bernardo Barbosa)