Profissionais da saúde se sentem mais preparados para combater a Covid-19

Rotina dos hospitais mudou com a pandemia

Talis Maurício Da CNN, em São Paulo
15 de agosto de 2020 às 21:23 | Atualizado 16 de agosto de 2020 às 13:26

A pandemia do novo coronavírus mudou drasticamente a rotina dos hospitais e dos profissionais da saúde. No entanto, mais de quatro meses após a chegada da doença ao Brasil, médicos e enfermeiros, antes inseguros, agora afirmam estar mais preparados para combater o vírus e salvar vidas.

Para entender o que mudou desde o início da pandemia, a CNN voltou a dois importantes hospitais públicos de São Paulo. O Conjunto Hospitalar do Mandaqui, na Zona Norte, que atende mais de 250 mil pessoas por ano, e o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, na região central, referência para tratamentos de doenças infectocontagiosas, como tuberculose, H1N1, entre outras.

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Em abril, quando a reportagem esteve dentro da UTI de Covid-19 do Hospital do Mandaqui, um óbito foi presenciado. A vítima era um idoso de quase 80 anos de idade. “Todos nós fomos treinados e capacitados para lidar com fortes pressões. Mas nenhum profissional, acredito, foi treinado ou capacitado para lidar com uma situação de pandemia. No começo houve uma incerteza no uso de substâncias para tratar a doença. Hoje, no estado de São Paulo, nós temos um protocolo no qual nós seguimos rigorosamente”, explica o diretor técnico da unidade, Marcelo Viterbo.

 
Foto: Reprodução/CNN

A definição de protocolos é um dos principais avanços apontados pelos profissionais da saúde desde o início da pandemia. O que antes era um ponto de interrogação, já começa a ficar mais claro. Significa que, agora, os médicos já sabem como e de que forma iniciar o tratamento em um paciente infectado. Algo que chegava a ser angustiante em meados de março e abril.

“No início estávamos muito angustiados e afoitos, por não saber como tratar de uma nova doença. Agora, a gente está muito mais aliviado e firmes em relação aos tratamentos e até mesmo em relação aos diagnósticos”, avalia o médico infectologista Guilherme Spaziani.

Para chegar ao estágio atual de conhecimento da doença, que ainda assim os profissionais consideram inicial, houve uma dedicação 100% ao trabalho, com jornadas diárias de mais de 12 horas. Foi o que fez o coordenador da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, José Eduardo Gomes de Vasconcellos. “No começo era aquela sensação de... você pegar, olhar e falar meu diploma não vale nada. Meu título especialista não vale nada. A gente queria informação. Eu quase aprendi chinês para entender o que os chineses falavam”, brinca.

Segundo Vasconcellos, alguns medicamentos chegaram a ser estudados no Emílio Ribas, mas não apresentaram resultados positivos. “As questões que envolveram medicações off label, caso da hidroxicloroquina, ivermectina, isso foi conduzido de uma forma melhor. A gente entendeu os estudos e até houve uma inibição das condutas”.

O mesmo aconteceu no Hospital do Mandaqui. “Usa ou não cloroquina? Usamos. E depois de um determinado tempo, chegou-se a uma conclusão de que o uso da medicação não trazia benefício para a população. Só que até ter essa certeza, levou-se um tempo”, afirma Marcelo Viterbo.

Leitos de UTI

A superlotação nas duas unidades hospitalares visitadas pela CNN já é bem menor em comparação aos últimos meses. No Hospital do Mandaqui, dos 60 leitos de UTI disponíveis, 40 são dedicados a infectados pela Covid-19. A taxa de ocupação, segundo a direção, está em 64%.

No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, primeiro hospital em São Paulo a atingir 100% de ocupação, 10 dos 60 leitos disponíveis já foram liberados para o tratamento de outras doenças. Mas, na área reservada para infectados, ainda chama a atenção a idade dos pacientes. Um deles era uma adolescente de apenas 16 anos. “É a mais nova paciente que temos aqui. Essa doença pega todas as idades. Em Mogi das Cruzes, onde trabalhei antes, peguei crianças de 2 meses, 4 meses, 11 anos, 9 anos, 5 anos... casos fatais. É uma doença fatal. Não importa a idade”, alerta o médico e coordenador da UTI, José Eduardo Gomes de Vasconcellos.

Com mais de 100 mil mortos e milhares de infectados, Vasconcellos explica que uma nova preocupação está surgindo em meio aos profissionais da saúde: a situação psicológica dos envolvidos com o novo coronavírus. Ele conta que chegou a lidar com inúmeros óbitos em uma mesma família, o que certamente vai gerar um trauma para os familiares sobreviventes.

“Existe uma situação síndrome pós-terapia intensiva, e existe um estresse pós-traumático decorrente da terapia intensiva em relação aos sobreviventes. A situação dos não sobreviventes também precisa ser acompanhada. Países desenvolvidos fazem isso. Então, essas condições, eu lhe pergunto, quem irá tratar essa população que ficou desamparada?”, questiona Vasconcellos.

É a resposta que a analista de atendimento Andreza Costa Reina, filha da enfermeira Maria Aparecida Duarte, de 63 anos, a Cidinha, está procurando. Ela trabalhava em um hospital público da Grande São Paulo e morreu em maio, após 15 dias internada com a Covid-19.

“A minha mãe era a espinha dorsal da minha família. Hoje a minha família está totalmente desestruturada. Hoje, grande parte faz tratamento com remédios psiquiátricos porque ainda não sabe lidar”, lamenta a filha, Andreza.

Em fotos apresentadas à CNN, Andreza mostra como a mãe era ativa, chegando até mesmo a participar de uma corrida de 10 quilômetros. Em outro vídeo, ela dança com dois de seus 14 netos.

Ao mesmo tempo em que lutam para salvar vidas, os profissionais da saúde acabam se expondo, e os enfermeiros são os principais atingidos pela Covid-19. Segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem, mais de 33 mil profissionais foram infectados desde o início da pandemia, sendo que 351 morreram. “Minha mãe não foi respeitada como uma profissional que se doou a vida toda. Minha mãe, simplesmente, era um soldado que colocaram a frente sem equipamento para que lutasse. Colocaram na linha de frente sem qualquer proteção”, criticou Andreza.

Segundo especialista em enfermagem consultados pela reportagem, os enfermeiros acabam se expondo mais porque são os principais responsáveis pela assistência direta aos pacientes. São eles que, por exemplo, trocam roupas, dão banho e fazem os medicamentos dos enfermos.

A técnica em enfermagem Liliane Cristine Caruzo, que trabalha no Emílio Ribas, não tem dúvidas de que condições adequadas de trabalho salvam vidas. Ela também atua em outros hospitais, onde a realidade é outra. “Falta de EPI, falta de material, falta de máscara, falta de avental. As pessoas acabam se contaminando muito no processo de desparamentar, porque tem lugares que você tem que reutilizar o mesmo avental que você começou no dia. Então, eu me considero abençoada, porque realmente muitos colegas meus não conseguiram... acabaram evoluindo para óbito”.

Dados do Ministério da Saúde apontam que, desde o início da pandemia, mais de 230 mil profissionais da área da saúde foram infectados pelo novo coronavírus. Uma batalha que ainda assusta, mas que, aos poucos, começa a ficar mais equilibrada.

(Edição: Amauri Arrais)