Quem pode ser voluntário nos testes de vacinas contra a Covid-19 no Brasil


Karla Chaves e Luana Franzão da CNN
16 de agosto de 2020 às 06:00

Com os reflexos globais causados pela pandemia do novo coronavírus, a busca por uma vacina que possa imunizar o maior número de pessoas contra a Covid-19 tornou-se prioridade entre a comunidade científica. 

Existem, aproximadamente, 70 projetos de vacina em todo o mundo, seis na fase final de testes em seres humanos. Três delas estão sendo testadas no Brasil.

Sinovac, Oxford com AstraZeneca e Sinovac BioNTech são os nomes que mais se ouve por aqui.

A chinesa Sinovac é desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan. A previsão é de que pelo menos 9.000 voluntários participem dos testes no país. Apesar de a parceria ter sido fechada com a instituição paulista, as doses também estão sendo aplicadas em voluntários em hospitais de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul, Paraná e Distrito Federal. 

Já a parceria entre a Universidade de Oxford, no Reino Unido, e a farmacêutica AstraZeneca é testada sob a responsabilidade da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Cerca de 5.000 voluntários espalhados em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia devem participar da testagem, 

Já a alemã Pfizer está realizando os testes de sua vacina em uma escala menor no Brasil. Por aqui, ela é aplicada em São Paulo, pelo Cepic (Centro Paulista de Investigação Clínica), e em Salvador, pela organização filantrópica Obras Sociais Irmã Dulce. A previsão é de que o estudo chegue a 500 voluntários apenas no final de agosto.

Como são escolhidos os voluntários?

Muitas pessoas, ao ver notícias sobre os testes no Brasil, expressaram vontade de participar como voluntárias. O acesso, no entanto, não é simples assim.

Em São Paulo, o governo do estado anunciou uma plataforma por meio da qual os interessados passam por uma triagem para se candidatar ao voluntariado em testes da vacina da Sinovac, no Instituto Butantan. 

A prioridade, no entanto, é para os profissionais da saúde. Além de médicos e enfermeiros, também são considerados parte da categoria fisioterapeutas, fonoaudiólogos, assistentes sociais, entre outros.

Essas pessoas estão em contato direto com o vírus e são mais suscetíveis à infecção. Com o alto nível de exposição desse grupo, o teste pode ser mais preciso em verificar se a vacina provoca ou não a imunização dos voluntários.

A repórter Karla Chaves conversou com Gustavo Cabral, imunologista que participa de pesquisas de desenvolvimentos de vacina na FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Segundo ele, a seleção é bastante rigorosa: “Cada projeto tem um padrão, eles seguem todos os rigores para que a vacina possa realmente ser testada e [para] entender se ela realmente é eficaz ou se tem algum efeito colateral. Se você não atende a todos os protocolos, que são muito bem discutidos, não dá para se candidatar”.

Nem todos os voluntários recebem imunização

O pesquisador também esclareceu a importância do chamado “grupo de controle”. Dentro de um teste de vacinas ou medicamentos, sempre há um grupo de pessoas que não recebem a substância testada e sim um placebo.

Esse grupo serve para que os pesquisadores possam entender se foi realmente a vacina aplicada que causou o resultado desejado no voluntário, e não qualquer outro fator externo.

“Nunca todos os participantes de um estudo podem receber a vacina de fato. Senão o resultado não fica completo. Sempre deve ter o placebo, o chamado 'estudo controle', porque, caso contrário, não saberemos se foi a vacina que funcionou ou se foi simplesmente o sistema imunológico que realizou a defesa”, explicou Gustavo Cabral.

O cientista também esclareceu que a escolha de quem recebe a vacina e quem recebe o placebo é totalmente aleatória e sigilosa: “Esse é um dos pontos cruciais do estudo, é o chamado randomizado, ou seja, aleatório, e duplo cego: nem o paciente nem o médico que está aplicando pode saber o que ele está recebendo. Por que se o paciente não sabe o que tomou, então não poderá dizer com certeza, por exemplo, que teve efeitos colaterais causados pela vacina”.

“E o médico – ou qualquer outro profissional que faça a aplicação – não pode saber o que está usando para não abrir a possibilidade de afirmar que teve interferência humana para provocar resultados positivos. Existe uma outra equipe, que faz a coleta dos dados, as amostras dos pacientes, e manda para uma terceira equipe analisar”, completou Cabral.

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O que acontece com os voluntários durante o teste?

Enquanto o período dos testes ainda está em vigor, os voluntários são observados de perto. As equipes realizam diversas coletas de amostras de sangue e outros fluídos para análise e acompanhamentos, para discutir quaisquer sintoma.

“O voluntário será acompanhado 24 horas por dia, qualquer problema que apareça, tem uma equipe para quem vai poder ligar. E então no final do estudo ele é informado de tudo o que aconteceu e será orientado nos próximos passos”, explica o pesquisador.

Dr. Gustavo Cabral e Karla Chaves conversam em frente à fundo com coronavírus

Gustavo Cabral responde à perguntas acerca das pesquisas em vacinas contra a Covid-19

Foto: CNN Brasil