Genes herdados de neandertais podem agravar Covid-19, diz estudo

Artigo afirma que gene - encontrado em 50% das pessoas no sul da Ásia e 16% dos europeus - pode aumentar em três vezes infeção pelo novo coronavírus

Maggie Fox, da CNN
01 de outubro de 2020 às 04:58 | Atualizado 02 de março de 2021 às 09:37
Homem Neandertal
Estudos têm mostrado que os humanos modernos cruzam com os Neandertais e uma espécie relacionada, conhecida como Denisovans, há dezenas de milhares de anos
Foto: Reprodução/Pixabay


Genes herdados de ancestrais neandertais podem estar envolvidos em alguns casos graves de Covid-19, relataram pesquisadores na Alemanha nesta quarta-feira (30).

Uma equipe de especialistas em genética neandertal examinou uma sequência de DNA associada a alguns dos casos mais sérios de Covid-19 e comparou-a com sequências conhecidas por terem sido transmitidas a europeus e asiáticos vivos de ancestrais neandertais.

A equipe de pesquisadores relacionou certas variações nessa sequência - encontradas no cromossomo 3 - com o risco de adoecer mais gravemente com Covid-19.

"Aqui, mostramos que o risco é conferido por um segmento genômico, que é herdado dos neandertais e é carregado por cerca de 50% das pessoas no sul da Ásia e cerca de 16% das pessoas na Europa hoje", escreveram Svante Paabo e Hugo Zeberg do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em um artigo aceito para publicação na revista Nature.

"Acontece que essa variante do gene foi herdada pelos humanos modernos dos neandertais quando eles se cruzaram há cerca de 60 mil anos", disse Zeberg em um comunicado.

"Hoje, as pessoas que herdaram essa variante do gene têm três vezes mais probabilidade de precisar de ventilação artificial se forem infectadas pelo novo coronavírus Sars-CoV-2."

Paabo e Zeberg encontraram variações semelhantes no DNA de um esqueleto de Neandertal de 50 mil anos encontrado na Croácia e alguns deles em esqueletos encontrados na Sibéria.

Estudos têm mostrado que os humanos modernos cruzam com os Neandertais e uma espécie relacionada, conhecida como Denisovans, há dezenas de milhares de anos. As pesquisas estimam que cerca de 2% do DNA de pessoas de ascendência europeia e asiática podem ser rastreados até os neandertais.

"Atualmente não se sabe qual característica derivada do Neandertal confere risco para Covid-19 grave e se os efeitos de são específicos para o SARS-CoV-2 ou também para outros coronavírus e patógenos", escreveram os pesquisadores .

"Não há realmente nada de especial do ponto de vista médico ou biológico no fato de que essa variante surgiu nos neandertais", disse à CNN o Dr. Jeffrey Barret, geneticista do Instituto Sanger do Reino Unido que não esteve envolvido no estudo.

"Os humanos têm uma grande diversidade genética, alguns dos quais surgiram em nossos ancestrais pré-humanos, alguns em Neandertais, alguns durante a época em que todos os humanos antigos viviam na África, e alguns mais recentemente."

Barret disse que esse trecho específico de DNA explica apenas uma pequena porcentagem das diferenças na gravidade da doença entre os pacientes com coronavírus.

“No entanto, com relação à pandemia atual, está claro que o fluxo gênico dos neandertais tem consequências trágicas”, concluíram Paabo e Zeberg em seu estudo.